18.7.08
hoje
sangra-te a alma em meio à música de ontem, o horizonte era ritmo e sol, hoje é um dia suspenso.
assombra-te o silêncio, a ausência de gestos, o chumbo dos dias, o lugar comum.
só o que tens são palavras a alma escapou-te ao fim de algum outono carregada por mãos silenciosas.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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8.7.08
reconhecer
um corpo lembra com exatidão outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo, quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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3.7.08
sob as pálpebras
um mundo sob as pálpebras a agitar-se na madrugada
palavras gestos interrogações e o teu silêncio
angústia e memória a se atirarem incessantes no lago dos olhos
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.6.08
tornar-se
a pétala desdobra sua canção acetinada e rubra contra o sol a nascer dentro dela
torna-se uma rosa quando me toca os olhos
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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14.6.08
é noite
a lua deitada no Tejo abre a estrada delirante ao poema quando a vida bate às nossas costas, rápida, e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes no meio da noite e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido, nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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7.6.08
o medo nas mãos
a mulher com o medo nas mãos, na vida é apenas uma chama frágil a esperar que o mundo lhe consuma. o medo apertado na garganta, a voz inexistente.
cantam os pássaros, tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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30.5.08
sobre o corpo
ainda o corpo domina a cena fala, diz o poema, estende-te no desejo, eleva-te na ternura, na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema, acima do que é banal e pouco e raso. são estes os dias nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema, e ama. este é o teu destino.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.5.08
mentiras
como calar a voz, o corpo, a vida, se tudo que bate no meu peito é assombroso e vibra?
como inventar caminhos, tecer estratégias, se o desejo, a pele, a angústia, que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim: digo mentiras.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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paris
para minha mãe
tenho esta cidade geneticamente pregada na alma revê-la é sorrir contigo, cúmplice, a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria é também tua.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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5.5.08
a cidade
a cidade sobe-me pelos dedos e escreve o poema
canta uma canção ao sol que surge tímido entre as teclas dos acordeons e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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28.4.08
Diria o mar
Não sei como dirias este mar onde o sol de entre as nuvens se absorve em clamores de espuma luminosa N.D.
Diria o mar como um deslimite, um universo onde criaturas voam um bailado de liberdade. Nós as olhamos, feito seres impotentes. Olhamos para cima as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino que divino, mas humano, nos entrega incondicionalmente. Nunca sabemos bem o que fazer com ele, a grandeza a erguer-se ou mergulhar aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão, acima e abaixo dos desertos, das rochas, da terra onde bate incessante e à qual pertencemos tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
escrito por Silvia Chueire
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