3.7.09
essência
há um blues traçado entre as minhas palavras e as minhas mãos, a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras, ritmo e desconsolo apontam caminhos entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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13.4.09
no verão
chove ainda, o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores, respira-as; cola-se aos azuis, verdes, vermelhos, pega-as com cuidado. vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade esta chuva fina a molhar-lhe os pés e o olhar. espera pela canção das cores e do sol, dos risos alagados pelo mar, do suor a fazer brilharem os corpos e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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4.3.09
Março
A insônia deposita seus olhos lunares sobre mim e diz um verso distante com todo o oceano de permeio. E o trabalho, as dúvidas, o grito claro da angústia, a música desaparecida da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado. Tem uma força que me custa resistir. Sou demasiado pequena, frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima, tudo tão subitamente fútil. Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
escrito por Silvia Chueire
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8.2.09
vitória
tens as mãos precárias a marcarem a memória humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele ainda que o oceano seja imenso e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga na vitória da matéria ?
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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16.12.08
tempo
tempo I
colhe um sorriso sobre o tempo, não te esqueças. ninguém dirá em sã consciência que a praia iluminada era eu, mas tu sabes.
tempo II
não fales do teu tempo fales das coisas a despeito dele; em breve sobrevirá a noite, as mãos e a boca paralisadas. e tu serás e não serás o mesmo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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6.12.08
amor?
deito-me sobre tantas coisas inúteis e me pergunto o que valerá todo o esforço?
este poema banal - qualquer deles - trata-se de traduzir o intraduzível?
a avalanche de microacontecimentos
despencando pelo nosso dorso, a pele respondendo elétrica; entre os dedos a escapar-nos; sob os olhos, através dos nossos sexos, e do cataclismo do gozo, dos corpos, ou dos pensamentos, que correm à busca de significado.
o que valerá a minha presença sem sentido neste mar de sentidos a entrechocarem-se, neste caos, sem linguagem que o signifique a não ser o amor que vivi, vivo, viverei?
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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18.11.08
névoa
uma névoa de pestanas e sentidos vêm-me os olhos, quando levantas suavemente o lençol que me cobre.
tua mão, o tecido, são o poema a percorrer meu corpo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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1.11.08
tentação
às vezes escreves um verso, na tentação dos afetos te escaparem pelos dedos.
não, pensas. teus versos hão que refletir apenas a vida que sobe pelas escarpas de granito e cresce entre as folhas das árvores.
mas o que fazer se a ternura derrama-te pelos olhos?
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.10.08
descansarei
o mar e a música moura impregnando as paredes a torre antiga da igreja esbatida ao sol e a casa abandonada a esperar.
um dia lá descansarei, pensaste.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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10.10.08
pequeno pássaro
a mão é um pequeno pássaro tocando a flor de laranjeira
pássaro e flor: poema inesperado desabrochando sob o sol nascente
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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28.9.08
inesqueço
a visão do teu sorriso pousado nos meus olhos nas minhas mãos
a calma a fúria
o desejo marítimo nos corpos banhados de luz
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.9.08
cacela
mar elevado contra o azul e o cal das paredes iluminadas sob o silêncio das buganvílias.
uma palavra antiga soprada sobre os meus ombros; a redenção súbita.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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15.9.08
partido
há no sorriso partido uma tristeza de punhal. pássaro a bater-se contra o vidro.
o corpo contra a parede se pergunta qualquer coisa, todas as coisas.
em vão. a mão que naufraga o amor nada responde.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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27.8.08
de sede
meu lugar de sede se alça sobre o tempo e diz apenas um nome, uma água como se fosse nome,
um nome feito um contraditório,.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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18.8.08
Deserta
Caminhas na tua angústia enclausurada no apartamento às três e cinco da manhã e dizes : basta! A cidade e o mar te olham desesperançados, teus olhos se encontram com os deles a cada poema que te escapa .
O sangue sobe-te à face, não sabes se estás zangado ou triste. Algo te martela a pele a pedir-te expressão, sem possibilidades. Não, dizes. Basta!
Mas dizer basta não te acalma a inquietude, desejas o poema.
Afinal, o que é o poema senão a tua voz a mostrar-te que há vida ?
Calas-te. Nada podes fazer, não sabes onde se encontra o poema; sequer sabes onde te encontras na vida repentinamente deserta.
Silvia Chueire
escrito por Silvia Chueire
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6.8.08
o tédio
o tédio pode ser um vício e a TV e as pernas sobre o sofá da sala - emaranhadas nos jornais não lidos –
e os cabelos desesperadamente em desalinho - absoluta falta de música –
e o círculo repetitivo dos dias
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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4.8.08
o sol
o sol nascia no meu peito iluminando-me a face, lembras-te? podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.
podia(s) sabê-lo no sorriso mais livre que jamais me aconteceu.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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29.7.08
puro
há as folhas elevadas sobre o cinza da tarde os pensamentos aquecidos pelo mormaço
olhas em torno sem suspeitar do mundo
- por instantes tudo é puro -
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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27.7.08
um silêncio
há um silêncio escavado no meio da pedra,
silêncio escavado no meio da vida.
tão fundo, tão fundo, é um grito .
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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18.7.08
hoje
tua alma estremecia em meio à música de ontem, o horizonte era ritmo e sol.
hoje é um dia suspenso, assombra-te o silêncio, a ausência de gestos, o chumbo dos dias, o lugar comum.
só o que tens são palavras, a alma escapou-te.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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8.7.08
reconhecer
um corpo lembra com exatidão outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo, quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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3.7.08
sob as pálpebras
um mundo sob as pálpebras a agitar-se na madrugada
palavras gestos interrogações e o teu silêncio
angústia e memória a se atirarem incessantes no lago dos olhos
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.6.08
tornar-se
a pétala desdobra sua canção acetinada e rubra contra o sol a nascer dentro dela
torna-se uma rosa quando me toca os olhos
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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14.6.08
é noite
a lua deitada no Tejo abre a estrada delirante ao poema quando a vida bate às nossas costas, rápida, e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes no meio da noite e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido, nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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7.6.08
o medo nas mãos
a mulher com o medo nas mãos, na vida é apenas uma chama frágil a esperar que o mundo lhe consuma. o medo apertado na garganta, a voz inexistente.
cantam os pássaros, tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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30.5.08
sobre o corpo
ainda o corpo domina a cena fala, diz o poema, estende-te no desejo, eleva-te na ternura, na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema, acima do que é banal e pouco e raso. são estes os dias nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema, e ama. este é o teu destino.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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21.5.08
mentiras
como calar a voz, o corpo, a vida, se tudo que bate no meu peito é assombroso e vibra?
como inventar caminhos, tecer estratégias, se o desejo, a pele, a angústia, que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim: digo mentiras.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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paris
para minha mãe
tenho esta cidade geneticamente pregada na alma revê-la é sorrir contigo, cúmplice, a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria é também tua.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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5.5.08
a cidade
a cidade sobe-me pelos dedos e escreve o poema
canta uma canção ao sol que surge tímido entre as teclas dos acordeons e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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28.4.08
Diria o mar
Não sei como dirias este mar onde o sol de entre as nuvens se absorve em clamores de espuma luminosa N.D.
Diria o mar como um deslimite, um universo onde criaturas voam um bailado de liberdade. Nós as olhamos, feito seres impotentes. Olhamos para cima as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino que divino, mas humano, nos entrega incondicionalmente. Nunca sabemos bem o que fazer com ele, a grandeza a erguer-se ou mergulhar aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão, acima e abaixo dos desertos, das rochas, da terra onde bate incessante e à qual pertencemos tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
escrito por Silvia Chueire
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23.4.08
o sol
elevamo-nos solares algum dia, em alguma terra habitada pelas oliveiras.
tinhas as mãos cheias de mim aproximavas teus lábios dos meus cabelos e me dizias tudo, depois depositava-os nos meus ombros.
éramos o sol , a exaltação da vida.
silvia chueire
escrito por Silvia Chueire
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