sao conrado at dawn IN THE MEADOW"

Se os dias, as palavras, os afetos a subirem-me pela face forem generosos e o meu olhar agudo,talvez escreva um poema, um conto. Por ora são anotações esparsas. In the meadow. Ao som do mar.


31.8.06


Rodin- Kiss


vertigem


toma nas tuas mãos o meu vôo,
as imperceptíveis asas recolhidas
à concha dos teus dedos.

sentes como estão trêmulas ,
como te tocam suaves?

é que todo vôo navega
até o porto.

depois é voragem,
vertigem.



silvia chueire


escrito por Silvia Chueire

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28.8.06


rodin-aurora e tithonius



vida

a vida bate-me à porta do corpo.
suas canções ressoam pelo quarto,
nas pálpebras bate-me luz
e sombra com seu andar lento

eis que ressuscitar
nos teu braços
tem significado mais amplo
do que eu suspeitava


silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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25.8.06

sobre morrer - o sangue





I

o sangue a ajudar
a lâmina.
o pulso, corpo
oferecido.
o corte, incisão definitiva
na respiração dos dias.

II

o sangue, o corte;
o corpo, árvore decepada
- vergasta interminável -
castigo
nos olhos que ficam,
caídos no abissal da falta.


silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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22.8.06

a palavra





I

a palavra em ângulo agudo
risco no ar
adaga
a descer sobre o homem

ferida à flor dos olhos.
voz letra
música
a palavra inevitável


II

a palavra a dizer(-se)
de algum lugar
ave a subir nas minha mãos
a voar delas


silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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17.8.06

Paraty


Paraty  - vista do mar













paraty - II


o vinho cresce na boca
elevado a poema
alonga-se nas mãos
a escrever palavras
sob a água flutuam os olhos
lassos deitam-se na calma da tarde

o presente é mais que a memória



silvia chueire



Paraty - ruas











paraty - III


a cidade acorda
com as crianças e as pessoas
em torno das palavras

livros
e cirandas
sob o céu de agosto
o gosto de cachaça
e frutos do mar
mistura-se ao romance
ao poema
à história dos homens



silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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14.8.06


Turner - Wreckers Coast of Northumberland

de medo

era um dia de medo sob as nuvens, um dia de música ignorada, o medo nascendo feito jato de água, do peito espalhando-se pelo corpo, a tremer tantos terremotos, a terra fosse revirar-se, a náusea a subir e descer.
era um dia de medo e nestes dias é que renunciamos viver. assim foi.

ela observava, às vezes a murmurar, nunca fora capaz do silêncio de pedra. observava, cada vértebra estremecida, pedindo : não, assim não. cada pensamento voltado para o acontecimento : a vida estancada, parada na borda do caminho à margem árida do que estava por vir.
mas nossas mãos nunca podem remover o medo alheio, por mais que prometam o paraíso. cada um procura o inferno que bem entende.

eram dias de tenebroso terror para os quais ela olhava sem acreditar que poderiam ser. dias de inundações, de ondas desgovernadas, de vozes chocando-se contra as paredes, contra a sua face incrédula.
também temeu. temeu o esquecimento de que eram felizes, tão mais felizes do que podem ser as pessoas no nosso tempo. sabia que a felicidade tem tanto peso quanto a morte, ambas não se deve esquecer.

eram dias de terror inerente. desaguaram em milhares da palavras, numa corrente líquida de palavras desesperadas, de pensamentos a procurar um nexo, qualquer nexo. mas qualquer nexo corria à solta das coisas, chorava-se a lágrima pura da dor.

era ela entre as paredes, a tecer as razões de tudo.
ela , penélope caricatural a repetir perguntas e respostas, tentando entender a turbulência . campos e campos de dor.

não se toma o medo alheio nas mãos e se o desfaz com gestos amorosos.
o medo alheio é uma intrincada floresta de dúvidas que não nos pertencem, de renúncias que não são nossas. nunca renunciou, nunca cedeu ao medo. mas a nossa coragem não é a coragem do outro.

era uma casa tristemente quieta de maio, a sua casa. tapou o seu rosto com a máscara do sorriso, calou sua voz entre as notas de uma qualquer música, e foi vivendo os pedaços da mulher que era, até que os recompusesse um dia. até renascer.

hoje, renascida, pensa : um dia a felicidade há de ser uma coisa natural.


silvia chueire


escrito por Silvia Chueire

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9.8.06


the bed-J.J.Whole









a cama

a cama dobrada sobre mim;
silhueta a levar-me
para o verde dos teus olhos
e a ternura colada aos gestos.

o horizonte dos lençóis,
a canção ao fundo,
a recolherem-me aos teus braços,
à memória úmida dos teus braços,
à tua voz suave a dizer-me
quantos oceanos se pode atravessar
numa viagem inequívoca.



silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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6.8.06







o poema

como escrever o poema,
quando as palavras não dizem
o que há a ser dito
e dançam sua própria dança louca,
para a qual não tenho estratagema ?

o poema devia nascer naturalmente,
da percepção para algum lugar
sem letras.
linguagem, mas não vocábulo,
a estruturar-se
tocando o âmago das pessoas
e das coisas.
impalpável feito a música,
a beleza da arte;
gesto fugidio e definitivo.

devia dizer-nos muito antes
que o disséssemos,
inscrito no lugar além
da mera humanidade,
sendo ainda essência do humano.

intocável o poema pousaria
em nossos ombros,
levíssimo,
no momento apropriado a acontecer
- apenas tempo suficiente
para nos iluminar.

não sendo matéria
estaria ao mesmo tempo
contido em toda ela,
em qualquer ato.

contido também nos desacatos,
no vinho a descer-nos
a garganta , no riso,
a roubar-nos a razão, roubando o siso.

nas costas flageladas pela tirania,
quando é delas que desliza o pranto,
e há que haver a voz da injúria,
do protesto.
no desejante abraço dos amantes,
quando tudo sorri e comemora.

devia ser encontro , o poema,
silencioso e só, conosco mesmos.
na busca incessante da poesia,
em qualquer gesto feito a esmo.

encontro de silêncios
e de ritmo,
oculto dos olhares das pessoas.
a flor
- desdita , mas presente -
que surge feito coisa à toa,
em sendo da nossa alma o afluente.


silvia chueire











escrito por Silvia Chueire

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2.8.06





respirar


respirar o fogo,
a chama a encerrar(-me)
tão fundo no peito
-punhal e prisão-
arde sobre a ferida,
sobre a noite em grades.

morder os lábios,
os músculos crispados
a combater a lágrima
e o corpo vazio.

dobrar a dor
meticulosamente
e (simular) guardá-la
fora do alcance.



silvia chueire

escrito por Silvia Chueire

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