sao conrado at dawn IN THE MEADOW"

Se os dias, as palavras, os afetos a subirem-me pela face forem generosos e o meu olhar agudo,talvez escreva um poema, um conto. Por ora são anotações esparsas. In the meadow. Ao som do mar.


segunda-feira, 14 de agosto de 2006


Turner - Wreckers Coast of Northumberland

de medo

era um dia de medo sob as nuvens, um dia de música ignorada, o medo nascendo feito jato de água, do peito espalhando-se pelo corpo, a tremer tantos terremotos, a terra fosse revirar-se, a náusea a subir e descer.
era um dia de medo e nestes dias é que renunciamos viver. assim foi.

ela observava, às vezes a murmurar, nunca fora capaz do silêncio de pedra. observava, cada vértebra estremecida, pedindo : não, assim não. cada pensamento voltado para o acontecimento : a vida estancada, parada na borda do caminho à margem árida do que estava por vir.
mas nossas mãos nunca podem remover o medo alheio, por mais que prometam o paraíso. cada um procura o inferno que bem entende.

eram dias de tenebroso terror para os quais ela olhava sem acreditar que poderiam ser. dias de inundações, de ondas desgovernadas, de vozes chocando-se contra as paredes, contra a sua face incrédula.
também temeu. temeu o esquecimento de que eram felizes, tão mais felizes do que podem ser as pessoas no nosso tempo. sabia que a felicidade tem tanto peso quanto a morte, ambas não se deve esquecer.

eram dias de terror inerente. desaguaram em milhares da palavras, numa corrente líquida de palavras desesperadas, de pensamentos a procurar um nexo, qualquer nexo. mas qualquer nexo corria à solta das coisas, chorava-se a lágrima pura da dor.

era ela entre as paredes, a tecer as razões de tudo.
ela , penélope caricatural a repetir perguntas e respostas, tentando entender a turbulência . campos e campos de dor.

não se toma o medo alheio nas mãos e se o desfaz com gestos amorosos.
o medo alheio é uma intrincada floresta de dúvidas que não nos pertencem, de renúncias que não são nossas. nunca renunciou, nunca cedeu ao medo. mas a nossa coragem não é a coragem do outro.

era uma casa tristemente quieta de maio, a sua casa. tapou o seu rosto com a máscara do sorriso, calou sua voz entre as notas de uma qualquer música, e foi vivendo os pedaços da mulher que era, até que os recompusesse um dia. até renascer.

hoje, renascida, pensa : um dia a felicidade há de ser uma coisa natural.


silvia chueire


escrito por Silvia Chueire

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2 Comments:




Anonymous Felipe K. said...

Gosto e sabe que esse formato de escrita, entre prosa e poesia tem me interessado muito? O Marcos Siscar escreve assim e diz que é porque os versos dele foram sendo demolidos com o tempo até o horizontal da prosa. Achamos, Eiichi e eu, que fôssemos te encontrar na FLIP. Beijos.

14/8/06 21:07  



Blogger 朝川栄一 [Asakawa Eiichi] said...

pois é silvia. Paraty é tão pequena, no entanto não topamos contigo por la... e olha que passámos as tardes a tomar sorvete na praça! que você viu por lá que te interessou? Mourid B., poeta palestino, acho que foi o alto do evento. Não só pela poesia que leu, mas pelas palavras, pelo "carvão alçafrão" (verso dele) que é a memória do exílio, da iniquidade, da intolerância que ele fala sem tom panfletário ou acusatório. E Adélia? viu? Siscar foi o poeta de bolso do felipe k. Eu não achei o meu de bolso (Mourid ainda não foi traduzido no brasil, à excessão de suas memórias, "Eu vi Ramallah" (Cia das Letras, 2005), mas achei meu prosador - Mario de Carvalho. bjs.

15/8/06 09:37  



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