domingo, 6 de agosto de 2006






o poema

como escrever o poema,
quando as palavras não dizem
o que há a ser dito
e dançam sua própria dança louca,
para a qual não tenho estratagema ?

o poema devia nascer naturalmente,
da percepção para algum lugar
sem letras.
linguagem, mas não vocábulo,
a estruturar-se
tocando o âmago das pessoas
e das coisas.
impalpável feito a música,
a beleza da arte;
gesto fugidio e definitivo.

devia dizer-nos muito antes
que o disséssemos,
inscrito no lugar além
da mera humanidade,
sendo ainda essência do humano.

intocável o poema pousaria
em nossos ombros,
levíssimo,
no momento apropriado a acontecer
- apenas tempo suficiente
para nos iluminar.

não sendo matéria
estaria ao mesmo tempo
contido em toda ela,
em qualquer ato.

contido também nos desacatos,
no vinho a descer-nos
a garganta , no riso,
a roubar-nos a razão, roubando o siso.

nas costas flageladas pela tirania,
quando é delas que desliza o pranto,
e há que haver a voz da injúria,
do protesto.
no desejante abraço dos amantes,
quando tudo sorri e comemora.

devia ser encontro , o poema,
silencioso e só, conosco mesmos.
na busca incessante da poesia,
em qualquer gesto feito a esmo.

encontro de silêncios
e de ritmo,
oculto dos olhares das pessoas.
a flor
- desdita , mas presente -
que surge feito coisa à toa,
em sendo da nossa alma o afluente.


silvia chueire










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