segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lanças

Lanças o gesto:
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.


Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.

Gesto e palavra :
um só fim.


Silvia Chueire

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Todos os dias

Todos os dias murmuras uma prece,
os lábios concentrados
em movimentos miúdos.

Todos os dias dizes seu nome sem perceberes.
Gravado na pedra da memória,
ele te vem à boca,
em chamas.

Todos os dias estremeces
a despeito da tua indiferença.
Inconfidente,
teu corpo te lembra que existes.

Silvia Chueire

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Acabar

O poema não sabe
se o ano está acabando
e desembaraça palavras
há muito caladas no meu peito.

Perco-me entre elas,
a baterem-me sobre os olhos
feito música,
e o tempo
- que pode ser todo ou nenhum,
mas pulsa.


Silvia Chueire


sábado, 2 de janeiro de 2010

Reveillon

Tenho os olhos mergulhados no céu
e flutuando pelo champanhe recém aberto;
Paco de Lucia dedilha Río de La Miel
e o poema vai tomando seu lugar entre os meus dedos.

Entre os meus dedos e a tela e a palavra e o desejo.

Lá fora o frisson dos fogos de artifício,
a ansiedade, a festa arrebatam a cidade.

Aqui a guitarra, castanholas
e a mulher a colher umas palavras.


Silvia Chueire

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal

Nesta noite eu os tenho a todos dentro dos olhos,
dentro dos braços.

A alegria e a ternura dançam nos sorrisos
e todos vêm a mim como se fosse ontem:

meus filhos e o Natal ,
o encantamento e o amor estampados.


Silvia Chueire

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Respiração


Abre o dia um cantar de pássaros.
O sol acende as nuvens
encostadas à rocha que vejo da varanda.

Suspeito que não sabes do que escrevo,
não somos mais um mesmo olhar para as coisas.

Entre fosco das nuvens e as paredes de pedra
há um mínimo espaço para respiração.

Se algo sobrevive neste espaço,
há de ser inseto ou angústia.


Silvia Chueire



segunda-feira, 23 de novembro de 2009

No desterro

Era um corpo no desterro do silêncio.

Um corpo sem voz,

sem palavras que o sustentassem.



Era a dor cravada no corpo,

espinho, punhal.

Dor e ausência.



Era o corpo (quase) morto.



Silvia Chueire

terça-feira, 13 de outubro de 2009

não sucumbir

não sucumbir após anoitecer:
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação

- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.


silvia chueire

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

bruto

o azul bruto da noite é um abismo:
cala-me a voz
ou a desata.


grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,

o azulnegro da noite bate no meu peito.


silvia chueire

sexta-feira, 3 de julho de 2009

essência

há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.

lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.

deixo-me levar.


silvia chueire

segunda-feira, 13 de abril de 2009

no verão

chove ainda,
o verão se aproxima lentamente.

a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.

o verão é um dos poemas da cidade.

o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.

naturalmente.


silvia chueire

quarta-feira, 4 de março de 2009

Março

A insônia deposita seus olhos lunares sobre mim
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.


Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.

Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.

Março. De olhos postos em mim.

Silvia Chueire

domingo, 8 de fevereiro de 2009

vitória

tens as mãos precárias
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo

não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente

haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?


silvia chueire


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

tempo

tempo I

colhe um sorriso sobre o tempo,
não te esqueças.
ninguém dirá em sã consciência
que a praia iluminada era eu,
mas tu sabes.


tempo II

não fales do teu tempo
fales das coisas a despeito dele;
em breve sobrevirá a noite,
as mãos e a boca paralisadas.
e tu serás
e não serás o mesmo.


silvia chueire

sábado, 6 de dezembro de 2008

amor?

deito-me sobre tantas coisas inúteis
e me pergunto o que valerá
todo o esforço?

este poema banal
- qualquer deles -
trata-se de traduzir o intraduzível?

a avalanche de microacontecimentos

despencando pelo nosso dorso,
a pele respondendo elétrica;
entre os dedos a escapar-nos;
sob os olhos,
através dos nossos sexos,
e do cataclismo do gozo,
dos corpos,
ou dos pensamentos, que correm
à busca de significado.

o que valerá a minha presença sem sentido
neste mar de sentidos a entrechocarem-se,
neste caos, sem linguagem que o signifique
a não ser o amor que vivi,
vivo,
viverei?

silvia chueire

terça-feira, 18 de novembro de 2008

névoa

uma névoa de pestanas
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.

tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.


silvia chueire

sábado, 1 de novembro de 2008

tentação

às vezes escreves um verso,
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.

não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.

mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?


silvia chueire

terça-feira, 21 de outubro de 2008

descansarei

o mar e a música moura
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.

um dia lá descansarei, pensaste.


silvia chueire

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

pequeno pássaro

a mão é um pequeno pássaro
tocando a flor de laranjeira

pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente


silvia chueire

domingo, 28 de setembro de 2008

inesqueço

a visão do teu sorriso
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos

a calma a fúria

o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz


silvia chueire

  Sábados   Há sábados que são uma gargalhada, uma exaltação do corpo, dos afetos. Há sábados a voar por aí que nos pertencem de...