Há uma palavra imersa em meus sentidos,
um poema que não se pode dizer.
Faz do meu corpo seu país,
deita versos desalinhados
sobre mim.
Depois voa,
seu vôo de canção.
Silvia Chueire
Se os dias, as palavras, os afetos a subirem-me pela face forem generosos e o meu olhar agudo,talvez escreva um poema, um conto. Por ora são anotações esparsas. In the meadow. Ao som do mar.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Nasce
Nasce, na opacidade das horas,
uma qualquer canção .
Uma palavra inquieta
a remexer-se:
um poema.
Silvia Chueire
uma qualquer canção .
Uma palavra inquieta
a remexer-se:
um poema.
Silvia Chueire
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Afronta
A insônia rebatida
nas casas banhadas
de sol
tem a marca
melancólica
do afastamento das coisas.
A beleza pode ser uma afronta.
Silvia Chueire
nas casas banhadas
de sol
tem a marca
melancólica
do afastamento das coisas.
A beleza pode ser uma afronta.
Silvia Chueire
domingo, 2 de maio de 2010
Hoje
É hoje o desabrochar da vida.
Esta conjunção
de palavras, pensamentos
e taquicardias.
Silvia Chueire
Esta conjunção
de palavras, pensamentos
e taquicardias.
Silvia Chueire
Pó
Tenho os pensamentos enredados
na grandeza da noite,
ela os empurra e confunde.
Meu corpo é um só contra o tempo e
tantas vezes se encolhe na angústia
de ignorar
o próximo fato definitivo.
Pó a temer pó.
Silvia Chueire
na grandeza da noite,
ela os empurra e confunde.
Meu corpo é um só contra o tempo e
tantas vezes se encolhe na angústia
de ignorar
o próximo fato definitivo.
Pó a temer pó.
Silvia Chueire
segunda-feira, 22 de março de 2010
levitar
o corpo levita
no centro da memória.
as mãos agem no claro-escuro
a enveredarem pela festa de imagens, sons.
levitam as palavras.
os olhos pensam que tudo é ilusão,
mas o corpo enlevado
se recusa a ouvi-los
e rodopia eufórico.
tomba a lógica
na claridade do mais dia dos dias:
tudo é como devia ser.
silvia chueire
no centro da memória.
as mãos agem no claro-escuro
a enveredarem pela festa de imagens, sons.
levitam as palavras.
os olhos pensam que tudo é ilusão,
mas o corpo enlevado
se recusa a ouvi-los
e rodopia eufórico.
tomba a lógica
na claridade do mais dia dos dias:
tudo é como devia ser.
silvia chueire
sexta-feira, 5 de março de 2010
nesta noite
entro nesta noite
com a navalha atravessada
nos dentes
os olhos procuram o mais agudo
da madrugada
a adrenalina arrepia
por baixo da pele
a palavra é fatal
silvia chueire
com a navalha atravessada
nos dentes
os olhos procuram o mais agudo
da madrugada
a adrenalina arrepia
por baixo da pele
a palavra é fatal
silvia chueire
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Lanças
Lanças o gesto:
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.
Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.
Gesto e palavra :
um só fim.
Silvia Chueire
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.
Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.
Gesto e palavra :
um só fim.
Silvia Chueire
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Todos os dias
Todos os dias murmuras uma prece,
os lábios concentrados
em movimentos miúdos.
Todos os dias dizes seu nome sem perceberes.
Gravado na pedra da memória,
ele te vem à boca,
em chamas.
Todos os dias estremeces
a despeito da tua indiferença.
Inconfidente,
teu corpo te lembra que existes.
Silvia Chueire
os lábios concentrados
em movimentos miúdos.
Todos os dias dizes seu nome sem perceberes.
Gravado na pedra da memória,
ele te vem à boca,
em chamas.
Todos os dias estremeces
a despeito da tua indiferença.
Inconfidente,
teu corpo te lembra que existes.
Silvia Chueire
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Acabar
O poema não sabe
se o ano está acabando
e desembaraça palavras
há muito caladas no meu peito.
Perco-me entre elas,
a baterem-me sobre os olhos
feito música,
e o tempo
- que pode ser todo ou nenhum,
mas pulsa.
Silvia Chueire
se o ano está acabando
e desembaraça palavras
há muito caladas no meu peito.
Perco-me entre elas,
a baterem-me sobre os olhos
feito música,
e o tempo
- que pode ser todo ou nenhum,
mas pulsa.
Silvia Chueire
sábado, 2 de janeiro de 2010
Reveillon
Tenho os olhos mergulhados no céu
e flutuando pelo champanhe recém aberto;
Paco de Lucia dedilha Río de La Miel
e o poema vai tomando seu lugar entre os meus dedos.
Entre os meus dedos e a tela e a palavra e o desejo.
Lá fora o frisson dos fogos de artifício,
a ansiedade, a festa arrebatam a cidade.
Aqui a guitarra, castanholas
e a mulher a colher umas palavras.
Silvia Chueire
e flutuando pelo champanhe recém aberto;
Paco de Lucia dedilha Río de La Miel
e o poema vai tomando seu lugar entre os meus dedos.
Entre os meus dedos e a tela e a palavra e o desejo.
Lá fora o frisson dos fogos de artifício,
a ansiedade, a festa arrebatam a cidade.
Aqui a guitarra, castanholas
e a mulher a colher umas palavras.
Silvia Chueire
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Natal
Nesta noite eu os tenho a todos dentro dos olhos,
dentro dos braços.
A alegria e a ternura dançam nos sorrisos
e todos vêm a mim como se fosse ontem:
meus filhos e o Natal ,
o encantamento e o amor estampados.
Silvia Chueire
dentro dos braços.
A alegria e a ternura dançam nos sorrisos
e todos vêm a mim como se fosse ontem:
meus filhos e o Natal ,
o encantamento e o amor estampados.
Silvia Chueire
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Respiração
Abre o dia um cantar de pássaros.
O sol acende as nuvens
encostadas à rocha que vejo da varanda.
Suspeito que não sabes do que escrevo,
não somos mais um mesmo olhar para as coisas.
Entre fosco das nuvens e as paredes de pedra
há um mínimo espaço para respiração.
Se algo sobrevive neste espaço,
há de ser inseto ou angústia.
Silvia Chueire
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
No desterro
Era um corpo no desterro do silêncio.
Um corpo sem voz,
sem palavras que o sustentassem.
Era a dor cravada no corpo,
espinho, punhal.
Dor e ausência.
Era o corpo (quase) morto.
Silvia Chueire
Um corpo sem voz,
sem palavras que o sustentassem.
Era a dor cravada no corpo,
espinho, punhal.
Dor e ausência.
Era o corpo (quase) morto.
Silvia Chueire
terça-feira, 13 de outubro de 2009
não sucumbir
não sucumbir após anoitecer:
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
bruto
o azul bruto da noite é um abismo:
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
sexta-feira, 3 de julho de 2009
essência
há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
segunda-feira, 13 de abril de 2009
no verão
chove ainda,
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
quarta-feira, 4 de março de 2009
Março
A insônia deposita seus olhos lunares sobre mim
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
domingo, 8 de fevereiro de 2009
vitória
tens as mãos precárias
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
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