sexta-feira, 11 de maio de 2007

Árabes - XLII

























O momento

O trabalho toma as pernas e braços
dos homens todos os dias,
enche-lhes as horas de ocupações.
Eles pensam que são responsáveis
e que todos os jardins existem em função deles.

Nós calamos a ânsia de liberdade,
calamos o olhar atrás das burkas,
a boca cerrada, a alma em torvelinho.
E fingimos, os poemas encerrados nas mãos,
quase não existir.

Maternalmente cuidamos dos homens
com os olhos distraídos nas panelas e crianças
e regamos cada face masculina de vaidade.
Mas sabemos que as flores e as crianças nascem
porque as acalentamos e aos homens neste amor.
Alimentamos seus sonhos de superioridade
despidas de orgulho,
pela sobrevivência do que foi sempre ensinado,
A sabedoria disfarçada na arquitetura diária.

E tecemos nossas estratégias
a esperar o momento melhor.
O momento do grito,
da liberdade.
O momento.


Silvia Chueire

sábado, 5 de maio de 2007















inorgânico

poema inorgânico,
racionalidade precisa,
lâmina a tocar o prisma do gelo.

amarram-se às suas frases,
cristal, rocha, sal,
arquitetura inanimada
de tudo que um dia foi vida,
ou virá a ser .

poema frio,
pura estética,
que se aloja na rocha do mundo.
mudo de sentimentos,
pairando no interstício.

poema sem traço do humano,
a palavra nos sobreviverá ?


silvia chueire

quarta-feira, 2 de maio de 2007

















lembrar

lembro-me do teu rosto
antes de morreres
para o amor.

lembro-me das chamas
crescendo nas tuas palavras,
do teu olhar a dizê-las.

os dias a serem vida,
não tempo.

lembro-me de ti,
impecável nos atos,
distante da sombra
- pura azáfama –
que agora és.

silvia chueire

sexta-feira, 27 de abril de 2007






















flamenco


dai-me uma guitarra
um flamenco a contagiar-me
uma guitarra para os meus braços
e ancas dançarem livres

uma carmem
as cordas rascantes, as palmas
e os tacos a marcarem o solo
e o ritmo.

o ritmo na ponta do corpo

um copo de vinho
bebido sobre o riso
e as mãos a marcarem
a intenção de matar
ou morrer
de amor

a vida da música
dai-me


silvia chueire

domingo, 22 de abril de 2007

fingir


agarro-me à memória
de um dia,
da tua boca,
dos teus dedos.

perco-me no quarto,
a insônia a enrolar-se
nas minhas pernas,
eu a fingir que é o poema,
a voz a dizer-me vem.

e finjo magistralmente.
meus dedos pensam
que são teus
e adivinho
todos os teus passos,
neste corpo que recusa o silêncio.


silvia chueire

quarta-feira, 18 de abril de 2007

woman writing in book - georges de feure


















ainda a noite

a noite acolhe tão bem a dor
entre suas sombras ocultamos
qualquer coisa desamparada
qualquer coisa inevitavelmente lúcida


silvia chueire

sexta-feira, 13 de abril de 2007

paula rego - choke



















comum

tudo é comum como um sapato velho.

passada a graça,
os olhos mergulhados na bebedeira,
espancar a mulher
no alto da madrugada,

e virar o ronco para o canto.

depois dizer :
desculpa-me.


silvia chueire

domingo, 8 de abril de 2007

Bernard Tate - Free as a Bird














uma mulher


para eliane stoducto


uma mulher paira sobre a vida.
nas canções , nas palavras,
nos filhos ,
em cada passo
de um caminho árduo.

esta mulher, sua vitória
arrancada aos dias,
o sorriso, a franqueza
e as mãos generosas ofertadas,
dorme no coração do mundo.


ah rever-te o riso aberto,
a força,
a face iluminada.

adeus é uma palavra dura.

silvia chueire

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Klimt - Danae

















tua boca

tua boca é o meu sonho
a caminhar, passos lépidos
pelo meu corpo.

é o teu desejo ,
o meu desejo, chuva miúda
a chover pelo meu ventre abaixo.

silvia chueire

sexta-feira, 30 de março de 2007
















dai-me


dai-me o oceano nas palavras,
nos olhos.
o sal, a água,
o poema,
o horizonte líquido
a umedecer-me a pele.

dai-me o vento nos cabelos,
o sol na alma,
o corpo mergulhado no sonho.


e poderei morrer amanhã.


silvia chueire

sexta-feira, 23 de março de 2007

Árabes - XLI

Jerusalem from the mount of Olives - Frederic Edwin
















jerusalém

ir a jerusalém.
abraçar-te, meu amigo,
conversarmos entre o entusiasmo
do argumento e a alegria
do encontro

novamente de volta à mesquita.
tu a orares ao meu lado
ou eu elevada por um só deus,
entrando na tua sinagoga
- meu corpo nas pontas dos pés,
a respirar respeito -
crentes na melhor das crenças,
a que não separa humanos.

nossas mãos e nosso riso abraçados
minha terra sem muros em torno,
tua terra sem mísseis prontos.
a vida falando alto,
sem promessas, apenas lá.
a afagar a paz.


silvia chueire

domingo, 18 de março de 2007










cair


o céu cai ao chegar a noite
sobre suas mãos vazias.

põe-se a não dizer palavras,
a cegar os olhos para não as ler.
- precisa esquecê-las,
dizer que fiquem com ele,
onde não o veja .

não é dela o corpo,
curvas, pele
- ainda são dele .
só o desespero lhe pertence.

nem o andar esguio de um gato
anestesia seu corpo esquadrinhado
pela dor.
o grito tomba-lhe ao colo.

um trompete, em jazz,
rasga o ar,
apenas seus olhos afundam
no escuro.



silvia chueire

segunda-feira, 12 de março de 2007

cézanne - the strangled woman






















insanidade

lembro-me da tua insanidade
teus olhos cristalizados,
tuas mãos em garra.

não se esquece a ira a golpear-nos
com palavras,
ou o dia fraturado pela voz,
elevada à potência n.

a escorrer-te pela face,
pelos gestos,
o desprezo.
teu desprezo
pelo humano
a desvelar o caráter do homem.

tu a apoderares-te dos outros,
a usá-los,
meros objetos a passarem-te pela vida.

lembro-me do mal
infiltrado nas tuas palavras
habitando com elas
as mãos dadas com os dias.

lembro-me.
é preciso não esquecer
os dias negros.
é preciso não esquecer a loucura.



silvia chueire

domingo, 4 de março de 2007

Árabes - XXXIX


















esquecer

sob a videira meus olhos
vêem claro
as tuas palavras em concha
sobre os meus seios.

sob a videira, amado,
o amor é maior que nós
nas uvas que pendem,
nas folhas que ocultam.

sob a videira, esquecer
é uma palavra estranha,
feito morrer.


silvia chueire

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

na tarde


o mais íntimo de ti
alçado no esplendor do dia
as mãos na suavidade dos pelos
da nuca ofertada

a evidência do corpo
a procurar o teu
da boca inverossímil
saída do devaneio
para a tua realidade ereta

no alto do gozo
no alto da tarde
no alto do mundo


silvia chueire




quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

sitting woman- schiele




















espero


dei-te os dias mais preciosos,
as mãos e o corpo febris,
o pensamento lúcido,
os olhos lavados de ti.

esperei-te,
só se espera a vida.
as tuas palavras costuradas a mim
falavam-me do teu amor.

escuto os dias
desde que me deixaste,
rumo a um deserto,
no silêncio do tempo.

o tempo, meu amor,
é um universo a dançar nos corpos
atravessados de angústia.

espero, ao olhar
a distância de um oceano,
que venhas.
a felicidade é um dia possível,
se estás.


silvia chueire

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Árabes XXXVIII






















Morrer

Diz-me ó sol impiedoso,
como se entrega a vida à terra?

Diz-me em que rosas dormem espinhos
e não ferem.

Como uma mulher eleva a voz
e se rebela,
em meio aos corpos que sangram,
e ergue os punhos
e vocifera
e amaldiçoa a guerra que os leva?

Diz-me
como sou capaz de morrer tantas vezes
e ainda não morrer como devia?

Silvia Chueire

domingo, 11 de fevereiro de 2007

estudo para cabeça de apolo - velazquez

















imprevisto


nada me disseram sobre a adrenalina
a escalar-me o peito
quando te visse,
a tornar-me a garganta, deserto.

o teu cansaço nunca foi previsto
enquanto sonhávamos
os mais altos sonhos.
não foi previsto o teu silêncio
na felicidade a me abraçar
todas as manhãs.

calo a minha voz
nesta noite infindável.
só os meus olhos falam de ti
mergulhados num lago.


silvia chueire

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Árabes - XXXVII


















Hoje

Minha dor morreu hoje.
Enterrei-a na curva mais suave da figueira.

Não mais verá a luz,
a minha dor em lágrimas.
Nunca mais verá a lua,
o quarto crescente
a iluminar-me a voz.


Silvia Chueire




sábado, 3 de fevereiro de 2007
















A sul


A sul, bem mais a sul,
as cores colam-se nas palavras
e nas faces inclinadas contra o sol.

A sul para onde se quer ir
quando o inverno nos atinge
o íntimo desguarnecido.

Voar para sul, para o sonho liberto.
Encontrar o sul em nós mesmos,
os braços abertos ao mundo.


Silvia Chueire

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

















teus olhos



teus olhos escalam um mundo
quando se intrometem entre as minhas
palavras – seriam pernas?-

a trazerem o oceano
que sempre me habitou
sereno e furioso
antes de o navegares
e o tomares
e o tornares teu



your eyes

your eyes climb a world
when they dive
into my words
- or would it be legs?-
bringing the ocean
that has always lived in me
- serene and furious-
before you you sailed it
and took it
and turned it yours



silvia chueire





sábado, 27 de janeiro de 2007















surpresa


sentas sobre mim os olhos quietos,
a cara crivada de perguntas,
e na calma esperas
que eu te diga a verdade dos humanos

não tenho nas mãos a verdade.

a verdade sobe delirante
pelos elevadores da megalópole,
pela megalomania dos loucos,
e foge de nós.

tenho nas mãos a angústia,
alguma lucidez reservada,
e agarrada na face a surpresa cotidiana
do homem: sua grandeza impensável,
sua insuportável pequenez.


silvia chueire

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

os amantes- magritte















em nome do amor


todos os gestos enganosos
- a mentira, a hipocrisia,
o drama inventado,
a voz supostamente trêmula -
cometidos em nome do amor,
pretendem perdão.

mesmo a mão que agride,
a palavra que manipula,
que tira proveito.
mesmo a arma que mata.

descaradamente pretendem perdão
- como se o amor fosse um pulha
a enganar-nos todos.


silvia chueire

sábado, 20 de janeiro de 2007





















em pedra


tentas transformar em pedra
o que é sentimento
com a tenacidade de um alquimista
em busca da secreta fórmula,
além – ou aquém, não sei – dos átomos.

talvez consigas,
talvez o mundo te seja prodigioso
e te mostre a face mágica.

pessoalmente acho vão esforço.
pessoalmente, eu, que não creio em magias,
quedo a cabeça sobre as almofadas,
a pensar, enquanto um blues galga as paredes:

esta tenacidade no amor seria preciosa.


silvia chueire


terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Árabes XXXVI



















inverno

o inverno desliza
no corpo que espera.

quanto frio ainda haverá,
antes que ele chegue
e de novo as rosas desabrochem
e com elas a cor pinte meu rosto?

desde que se foi o meu amado
não há almíscar,
o perfume desertou a vida,
o vinho não sabe a prazer.
já não me acolhe, a noite,
é escuridão sem voz .

o vento não se oculta no deserto,
nem fala aos meus quadris
nenhuma dança.

desde que se foi o meu amado
o inverno não se cansa de ser eu.

silvia chueire

sábado, 13 de janeiro de 2007
















de outono


tenho olhos para ver
os teus olhos de outono
a me falarem na distância,
teus gestos.

é sempre outono,
a nossa estação.
as horas correm entre as árvores
do lugar onde te espero.


silvia chueire

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

strangled woman - cézanne
















fazer morrer


se a morte andava pelas tuas mãos
não era de propósito.
descuidado, era seu modo de andar.

também tu a chamavas inadvertidamente
teu amor por ela era maior
do que todos ao teu redor

o que poderias fazer
desta paixão pelo avesso da vida,
pelo avesso do afeto?


silvia chueire

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007






















(im)possível

era uma lua alta sobre a chuva
e os fogos
e a cidade em combustão.
era uma lua oculta,
uma lua silenciosa,
uma quase-palavra que eu diria a ti,
um gesto.

repentinamente horas
em que tudo parece ontem
e estou suspensa em segundos mudos
sob o grito da noite e das pessoas.

só eu sei a palavra (im)possível.


silvia chueire



terça-feira, 26 de dezembro de 2006

hetikep

















da falta


meu corpo dobrado sobre si
percebe claramente
a distância e a falta
a lhe colarem a pele de angústia

são dias longos de silêncio,
desejar é o avesso da falta.
o que desejas, corpo meu,
se ele não está?



silvia chueire

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006














névoa


era uma palavra e nada mais,
a névoa a cobrir o mar.

abraço nebuloso,
a esconder-lhe a cor.

o horizonte perdido
na fumaça úmida,
gris colado ao dia.

nem se podia ver a água,
a palavra encoberta,
feito segredo.

o corpo, a voz, abraçados pela névoa.
tantas vezes penso que sou mar.



silvia chueire

domingo, 10 de dezembro de 2006

legado

















legado

há uma viagem oculta
por trás dos nossos gestos
uma palavra por trás do silêncio

navego neste lugar
entre pensar que sei
e saber que ignoro

meu único legado
será o poema imerso em mim
eu imersa no poema

não mais

silvia chueire

quarta-feira, 29 de novembro de 2006


fazer de conta


faço de conta que é outra coisa
e finco os pés nos dias
como se tivesse forças
para colhê-los sozinha.

sempre um dia e outro,
não exatamente iguais,
nem exatamente opostos.

debruço-me sobre o papel,
a caneta carregada de palavras
que se articularão a despeito de mim
feito desconhecidas falando entre si
uma língua cifrada.
escrevo-as.
não há outro caminho.


silvia chueire

terça-feira, 21 de novembro de 2006

dois poemas

interrupted reading - corot






















às vezes


a vida é um sono
- um sonho ? –
imagens difusas e paradas
dias e noites em infusão
no tempo

olhamos para ela
os olhos descrentes
de que possa começar a andar

quando menos percebemos
carrega-nos para além de nós.


silvia chueire





ao modo de fotografar


quando olho sei que fotografo.
descubro a permanência da luz,
a terrível permanência da luz,
suas nuances impressas.

quando olho ao modo de fotografar
incidindo a lâmina da imagem na retina,
na memória a alma da circunstância,
sei que estou cativa.
e um vento frio me percorre o corpo.


silvia chueire

terça-feira, 14 de novembro de 2006

stary night- vincent van gogh













nós

a noite abraça as palavras
e a insônia maternalmente.
acalenta os olhos
- perdidos em pensamentos -
no despropósito de espreitarem
o esboço da lua entre nuvens espessas.

a vida pode ser a noite,
os olhos,
a lua.
nós somos pensamento.


silvia chueire

quinta-feira, 9 de novembro de 2006



















Uma fotografia


Uma fotografia pode ser uma faca profunda
e ácida na pele dos vivos
- se os olhos sentem-se queimados
pelo desconsolo do tempo.

Pode ser um afago a tocar a música
de uma memória que vive
seu lugar inextinguível
- se as mãos preservaram
o sentido do toque.

Uma fotografia pode apenas não ser ;
esvaziada de significado,
morrerá
- assim que desviarmos o olhar.


Silvia Chueire

domingo, 5 de novembro de 2006

a título de despedida

Lisboa- rua do Alecrim


Lisboa- Chiado à noite












Lisboa- O Tejo e a chuva













respirar a cidade

respiro a cidade
com a força de quem não a quer deixar fugir,
a intenção firme de trazê-la
um pouco mais para mim.

não a perder,
tê-la sob a pele.
a luz, o espetáculo do rio,
os telhados
numa alegoria da vida
que percorre as ruas e os sorrisos,
as casas e a melancolia.

respiro a cidade

- o país -
com a determinação de manter a memória
viva, a cidade pulsando
no meu corpo,
os rostos dos amigos brilhando
na noite, as garrafas de vinho
e as palavras ouvidas nos dias.
nos dias o sol e a chuva
a produzirem novas cores.

respiro a cidade
antes de deixá-la,
levo-a comigo.

silvia chueire

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

árabes - XXXV

A.Styka - Couple arabe



















o teu corpo é a minha casa

teu corpo, teus braços,
teu olhar, são o meu lugar,
o lugar onde quero viver,
onde respiro,
onde sei porque sou.

ter-te em mim, meu amor,
ter-me em ti,
é saber o exato lugar
ao qual pertenço,
onde estou inteira,
toda eu.


silvia chueire

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Paula Rego - Flying Children





















não importa


não importa se a morte vem
se mergulhei os dedos
na água dos teus cabelos,
se os aqueci na combustão da tua pele,
se elevei o meu corpo
com o teu à mesma palavra.


a cada minuto respiração
adiando a impermanência



silvia chueire

domingo, 22 de outubro de 2006

o dia

















o dia

habitas uma terra antiga
e voltas os teus olhos
para a noite que te cerca.

perdes o dia
- novo, novo -
que te sobe pelas pernas,
agarrado a elas,
falando-te palavras
novas em cor e som.

perdes o dia
que iluminará o escuro
que te toma os olhos,
não importando se a morte vem.



silvia chueire



quarta-feira, 18 de outubro de 2006

poemas curtos

Algar Seco - Algarve














do algarve

I

um dia falei de outro céu,
hoje é de outro mar que digo,
nos braços do mesmo céu,
a me alagar os olhos.

II

as rochas e o silêncio rompido
pelas ondas em protesto.
tantas vezes me parece que sou mar.



III

para l.p.

transportamos na pele um país
disposto a adotar o outro
se a amizade nos abre os olhos
e o afeto à beleza,
à partilha.
aí somos um mundo.

silvia chueire

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Lisboa


És só minha quando te mostras a mim
na noite pregada à Lua
pregada ao Tejo
que respira dentro dos meus olhos

És só minha quando te despes
silenciosamente iluminada
nas minhas mãos cheias de um copo
cheio de vinho

És absolutamente minha
quando te descobres nos corpos
e nas bocas
que sorriem do alto dos beijos
no alto do Bairro Alto



Silvia Chueire




quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Lisboa















não é o mesmo II


hoje o amor não é o mesmo,
deita nas praças seu corpo desejoso,
distende-se na luz da cidade,
tonto de beleza.

emoldurado pelo rio
o amor diz o poema fundamental
quando a vida respira nele
e a palavra a complementa
e se eleva,
nas bocas úmidas de vinho.

silvia chueire

segunda-feira, 2 de outubro de 2006


















não é o mesmo


hoje o amor não é o mesmo.
o céu pesa, gris,
cheio de contradições
entre beleza e angústia.
não é o mesmo, o amor,
ignora as nuvens.


acima, além, adiante
das palavras
que apenas o roçam
-aves que seguem fúteis
rumo ao sul ou ao norte -
o amor se reconstrói
lentamente,
calmamente.

longe dos que não o conhecem
e vivem arremedos,
máscaras,
mas tecem considerações
- técnicos do afeto .
longe dos amargos,
A ignorar previsões sombrias.

hoje o amor é outro
a dizer o que deseja,
a afirmar-se em cada ato,
a boca cheia de beijos.



silvia chueire

quarta-feira, 27 de setembro de 2006















submerso


olha o teu corpo submerso
na água do tempo.
não o recuses.
não há mistérios
ou recuos, na passagem
do corpo pela terra.

não há uso no tédio da eternidade,
nem se pode fugir à trajetória
curtíssima que nos cabe,
ou pretender que ela não seja curva.

há no vento que nos sopra a vida
uma exatidão de lâmina,
nem as palavras nos excluem dele.




silvia chueire



quarta-feira, 20 de setembro de 2006




















contemporâneo


pouco se me dá a agonia lenta
da voz que me fala.
- disseste algo, honey? -

aumentemos o volume da Joplin,
há palavras de mais sendo ditas.

desvio-me verticalmente dos gestos
para alimentar a estética,
os olhos passeando pela beleza dos corpos.
tudo tão cool, tão frio.
talvez uma pequena lápide ficasse bem.

a morte, meu amor,
é algo que não sei,
mas que alimento com as mãos.



contemporary



I couldn’t care less about the slow agony
of the voice that talks to me
- did you say anything, honey? -

turn up the volume of Joplin,
too many words are being said.

I swerve vertically from gesture
to nourish aesthetics,
eyes sliding over the beauty of bodies,
everything so cool, so cold.
maybe a small gravestone would look well.

death, my love,
is something I don’t know,
but I feed it with my hands.



silvia chueire*

*ambas as versões

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

matisse-mulher em frente à janela

















a espera


havia apenas o mar nos olhos, uma vaga aflição e a espera amorosamente tecida nas canções, quando a lâmina tirou-lhe a voz da garganta e o oceano do peito. de um só golpe decepou-lhe a realidade e o sonho.

todas as justificativas para a dor são injustificadas quando o amor é óbvio e olha com olhos de esperança. recapitulados os dias perfeitos, impecáveis, indescrití­veis dias de fascínio, nada mudou. como se um furacão de acontecimentos não a tivesse surpreendido.

"entre as quatro paredes do meu peito, só eu sei. só eu sei o que espero e o que desespero", foi a única pista rara vez sussurrada a alguém.

no mais, permanece sentada à mesma janela de sempre. diz coisas incompreensíveis vez em quando. lê um livro.ouve música. olha em torno como se acordasse do sono, entoa alguma canção qualquer, vai e volta, sorri, diz às pessoas coisas gentis, prováveis. mas permanece lá, nas noites inquietas, a conversar com ele que já não está. a espera, o desespero, raramente visíveis.


na sala, no quarto, no corpo, em todo lado os sinais da vida desfeita, que só ela sabe.


silvia chueire

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

in the dark

Blowin the blues-Arthur James














no escuro

a noite é uma sucessão de horas no escuro
não importa, nada importa
mais uma vodka
uma garrafa de bom vinho
uma carreira branca
mais uma cançao a ser cantada
com a garganta trêmula
do sentimento que acossa
o blues magistral fatia a noite
emudecidas as conversas
resgata faces, humanas

é tarde
esgotam-se as horas
o corpo se ressente de ausências
crônicas as palavras caem
sobre o bloco
apanhado ao acaso

o corpo se ressente e cai
nos velhos braços jovens da noite
risos e mais uma dança
antes do amanhecer
sobre lençóis suspeitos


é a vida, diria depois,
condescendamos


silvia chueire

sábado, 9 de setembro de 2006














Esqueço-me


Freqüentemente me esqueço que o mundo
tem a idade do olhar dos homens
para as coisas e as mulheres,
como se fossem deuses, ou baú de brinquedos.
Que as mulheres vivem na oscilação lunar
pisando ora em lâminas,
ora na areia da praia,
em pequenas taquicardias,
a oferecerem o seio ao amante,
ou ao pequenino que alimentam
com olhos mansos.


Freqüentemente me esqueço da aguda
mortalidade nossa.
Nossa, de todas as criaturas,
transfiguradas em pó ou pedra
ou numa árvore qualquer,
sem solenidade.
Apenas porque um dia surge
depois de outro.



Freqüentemente me esqueço
e quero o teu corpo
para amá-lo, abrigar-me nele,
por ele me deixar amar
atravessada de prazer.
Acolhida por ti em luz,
alegria, música
- o desejo atendido,
a atender-te.


Porque do alto do amor
pouco me interessa a questão metafísica da morte,
ou da possibilidade de não estarmos aqui
se o tempo do olhar
não corresponde ao tempo físico.



Silvia Chueire

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

ritmos

há uma sede de ritmos
a me embalarem nos teus passos,
nos teus braços ao redor de mim
me conduzindo a outro lugar
em que somos tão mais que as palavras.

o samba a dizer muito alto
como se dança,
meu rosto no teu sorriso,
teus olhos embriagados
na minha canção.
nossos corpos musicais
iluminando tudo,
nosso mistério.



silvia chueire

sábado, 2 de setembro de 2006




uppercut


na sua eficácia de punhal
o olhar incide
sobre o lago da iris
-sua precisão inevitável
suspende as vozes-

até o próximo gesto
até o próximo passo
ou corpo bélico
a atirar um uppercut exato
na ponta do
queixo próximo


silvia chueire

  Sábados   Há sábados que são uma gargalhada, uma exaltação do corpo, dos afetos. Há sábados a voar por aí que nos pertencem de...