sábado, 30 de março de 2019

Quantico



Dobra-se o tempo.

Num arrepio as coisas não estão mais lá;
tudo é  realidade sobre realidade.


Nossa ingenuidade
- arrogância?-
é supor que sabemos algo
neste mar de acasos.


Silvia Chueire

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

diários V



o perfume
eleva a pele a algo entre
o veludo e o abraço.


cola-se na minha memória
a mistura de tangerinas,
rosas, lilases.
e traz com elas dias inteiros.


silvia chueire

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

diários IV


       
a rotina pode ser

uma impercebida prisão.

 

toma-nos de surpresa.

pé ante pé

instala-se na vida de acordo

com estranhos relógios.

 

demora livrar-se dela.

 

silvia chueire

sábado, 11 de novembro de 2017

diários III

as orquídeas lançam raízem e flores

desenfreadas.

têm pressa.

 
desabrocharão sua beleza extrema

com a paixão típica das flores.

 

silvia chueire

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

diários II


olimpíadas -

breve os deuses do olimpo

virão dar às nossas praias,

correr nas nossas florestas,

amar nossa alegria.

 

tudo será o sonho realizado de um poema.

 

silvia chueire

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Fim



 Era tua a mão,

 música, a me tocar , memória.

Entre palavras a proximidade de um oceano,

a distância de um olhar,

o silêncio vivo do deserto.

 

Era minha a face desguardada,

Teu o coração depositado em minhas mãos.

O ar que eu respirava, era teu.

Tudo era assim : súbito .

Pequenas mortes, risos, gestos delicados

a nos tomarem

 

- até o fim .

 

Hoje voo alto.

Tu não és tu,

já não sou eu.

 

Silvia Chueire

quinta-feira, 8 de junho de 2017

diário I


 

 o dia estava nítido hoje.

cada vez mais os dias nítidos me fazem alegre

e assobio canções pela rua

como fazia aos dezoito anos.

é uma felicidade inesperada e gratuita.

 

nestas horas

é possível ouvir a música da vida toda.

 

silvia chueire

Como ressuscitar um blog de poemas ?

 

Acordando-o delicadamente
com um beijo e um carinho?

Um grito de despertar aflito
do tempo perdido?

Acordando-o para uma noite de sexo, selvagem
mas poético?

Tudo e nada.

Os poemas, o blog, hão de acordar por conta própria.



Silvia Chueire

Crepúsculo na praia de São Conrado



quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mais um ano


mais um ano

é um oceano a ser navegado.

velas distendidas pelo vento ,

não-saber se chegaremos,

a beleza  dos dias , da luz

das noites estreladas.

 

e as tempestades a sacudirem-nos,

medo a navegar as ondas.

ou paixão, entrega,

calma,  desvairo

 

e sobre tudo o coração e olhos

escancarados para a vida.

 
 
Silvia Chueire
 
 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

corpo



 não se pode elidir o corpo

ele é nós. nós somos ele.

pele, artérias, sangue,

órgãos, músculos.

sentidos e sensações.

 

não se pode fingir que não existe,

ou deixar de pronunciá-lo

em palavras claras

- como se fosse um erro.

 

é nosso corpo.

e está vivo.
 

Silvia Chueire

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

olhar para trás




 

não há nostalgia,

dor,

ou arrependimento.

 

olhar para trás

traz a satisfação da vida bem vivida.

medo, ousadia, ansiedade, prazer,

perdas, ganhos, riso e lágrimas.

o vinho bem bebido,

a música embalando corpo e alma,

as palavras atadas ao afeto.

 

olhar para trás traz esta certeza:

viver é preciso.

 

Silvia Chueire

 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não sei




Há pessoas que têm as mãos cheias de poemas

e os cabelos e a alma.

- Bordam o dia com os versos mais inesperados –

 

Não sei de onde me surgem as palavras

ou o que fazer com elas.

Arranjá-las em meio à angústia

com o dia a bater-me na face.
Não sei.

 

Silvia Chueire

domingo, 17 de junho de 2012

elevar


retirar o silêncio dos olhos,
deixá-los mergulhar no céu,

nas cores e faces humanas.

- desvelá-los -


retirar o silêncio das mãos,
da boca.

deixá-las ser.

cada palavra

no seu  frescor,

viva como riso

ou choro.


retomar a paixão,
a vida a galopar

corpo afora,

a elevar verbo e tempo.





silvia chueire

quarta-feira, 16 de maio de 2012

outono



nada das folhas secas e cores de terra,

o sol brilha na sua majestade tropical.

a cidade e seus seres apressados,

sorriem a desprezar as estações.



às vezes me faz falta a discrição

trazida pelo outono.


autumn


no dry leaves and earthly colours

of fall.

the sun shines in a tropical splendor.

the city and  it’s hasty creatures

smile with no regard for the seasons.


sometimes  I miss the discretion

brought by autumn

silvia chueire

quinta-feira, 15 de março de 2012

Primavera árabe

 Rejubilam-se as almas lavadas de liberdade,

eu e meus irmãos súbito tocados pela luz.

Pertencem-me  as palavras

para dizer o que eu queira!



Há algo além da alegria, neste dia de alegrias.

A felicidade é isto:

 a conquista de nós mesmos,

de um lugar no mundo

sob as nossas vontades.



Sou  mais irmã das minhas irmãs e irmãos,

porque sou eles e eles são eu.

Alaga o meu peito este amor compartilhado.



Um dia havíamos de amanhecer na primavera,

em todas as estações do ano !

Silvia Chueire

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Da poesia

Sussurro mínimo
ao longo do sol que se põe.

A sedução das perguntas,
da beleza.
A canção oculta entre palavras
pensamentos.

Dispersa pelo mundo.

A poesia  dos dias
a salvar-me a sanidade.

 Silvia Chueire
                                                 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Uma pedra

Há uma pedra na insônia.
São de pedra as nuvens carregadas e a voz calada.



Um corpo pende no abismo.
Equilibra-se ou não,

como qualquer objeto.



Toda a consciência da pedra,
da luz,

do sangue,

da microscópica importância da existência

se entrechocam .



Silvia Chueire

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Breve

Tão breve a vida,


o coração passando por um buraco de agulha,

as frases , as juras, os risos, os enganos,

a respiração subitamente contida,

a vaidade. A verdade?



Tão breve!



Silvia Chueire

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Cada parte

Cada parte encrespada do todo

é linha a separar vida e morte.



Cada parte a gritar ou inclinar a cabeça

é vento a passar pelo outro,

a passar por nós mesmos.



Cada parte encrespada do todo,

é pulso, lábio, palavra encantada.



Cada parte, eu, tu.

Cada parte, essência.



Silvia Chueire

  Sábados   Há sábados que são uma gargalhada, uma exaltação do corpo, dos afetos. Há sábados a voar por aí que nos pertencem de...