terça-feira, 18 de novembro de 2008

névoa

uma névoa de pestanas
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.

tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.


silvia chueire

sábado, 1 de novembro de 2008

tentação

às vezes escreves um verso,
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.

não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.

mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?


silvia chueire

terça-feira, 21 de outubro de 2008

descansarei

o mar e a música moura
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.

um dia lá descansarei, pensaste.


silvia chueire

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

pequeno pássaro

a mão é um pequeno pássaro
tocando a flor de laranjeira

pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente


silvia chueire

domingo, 28 de setembro de 2008

inesqueço

a visão do teu sorriso
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos

a calma a fúria

o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz


silvia chueire

domingo, 21 de setembro de 2008

cacela


mar elevado contra o azul
e o cal das paredes iluminadas
sob o silêncio das buganvílias.

uma palavra antiga
soprada sobre os meus ombros;
a redenção súbita.


silvia chueire


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

partido

há no sorriso partido uma tristeza de punhal.
pássaro a bater-se contra o vidro.

o corpo contra a parede
se pergunta qualquer coisa,
todas as coisas.

em vão.
a mão que naufraga o amor
nada responde.

silvia chueire

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

de sede

meu lugar de sede
se alça sobre o tempo
e diz apenas um nome,
uma água como se fosse nome,

um nome feito um contraditório,.


silvia chueire

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Deserta

Caminhas na tua angústia enclausurada
no apartamento às três e cinco da manhã
e dizes : basta!
A cidade e o mar te olham desesperançados,
teus olhos se encontram com os deles a cada poema
que te escapa .

O sangue sobe-te à face,
não sabes se estás zangado
ou triste.
Algo te martela a pele
a pedir-te expressão,
sem possibilidades.
Não, dizes. Basta!

Mas dizer basta não te acalma a inquietude,
desejas o poema.

Afinal, o que é o poema
senão a tua voz a mostrar-te
que há vida ?

Calas-te.
Nada podes fazer,
não sabes onde se encontra o poema;
sequer sabes onde te encontras
na vida repentinamente deserta.

Silvia Chueire

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

o tédio

o tédio pode ser um vício
e a TV
e as pernas sobre o sofá da sala
- emaranhadas nos jornais
não lidos –

e os cabelos desesperadamente
em desalinho
- absoluta falta de música –

e o círculo repetitivo dos dias

silvia chueire

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

o sol

o sol nascia no meu peito
iluminando-me a face,
lembras-te?
podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.

podia(s) sabê-lo
no sorriso mais livre
que jamais me aconteceu.


silvia chueire

terça-feira, 29 de julho de 2008

puro

há as folhas elevadas
sobre o cinza da tarde
os pensamentos aquecidos
pelo mormaço

olhas em torno
sem suspeitar do mundo

- por instantes tudo é puro -


silvia chueire

domingo, 27 de julho de 2008

um silêncio

há um silêncio escavado
no meio da pedra,

silêncio escavado
no meio da vida.

tão fundo, tão fundo,
é um grito .


silvia chueire

sexta-feira, 18 de julho de 2008

hoje

tua alma estremecia
em meio à música de ontem,
o horizonte era ritmo e sol.

hoje é um dia suspenso,
assombra-te o silêncio,
a ausência de gestos,
o chumbo dos dias,
o lugar comum.

só o que tens são palavras,
a alma escapou-te.



silvia chueire

terça-feira, 8 de julho de 2008

reconhecer

um corpo lembra com exatidão
outro corpo.

reconhece-o por sobre o tempo,
quando aquele é seu lugar definitivo.

silvia chueire

quinta-feira, 3 de julho de 2008

sob as pálpebras

um mundo sob as pálpebras
a agitar-se na madrugada

palavras gestos
interrogações
e o teu silêncio

angústia e memória
a se atirarem incessantes
no lago dos olhos

silvia chueire

sábado, 21 de junho de 2008

tornar-se

a pétala desdobra
sua canção acetinada
e rubra
contra o sol
a nascer dentro dela

torna-se uma rosa
quando me toca os olhos


silvia chueire

sábado, 14 de junho de 2008

é noite

a lua deitada no Tejo
abre a estrada delirante ao poema
quando a vida bate às nossas costas,
rápida,
e temos palavras coladas a nós.

o vinho faz subirem as vozes
no meio da noite
e o afeto nos ilumina.

súbito tudo parece resolvido,
nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.


silvia chueire

sábado, 7 de junho de 2008

o medo nas mãos

a mulher com o medo nas mãos,
na vida é apenas uma chama frágil
a esperar que o mundo lhe consuma.
o medo apertado na garganta,
a voz inexistente.

cantam os pássaros,
tudo está aceleradamente de passagem.


silvia chueire

sexta-feira, 30 de maio de 2008

sobre o corpo

ainda o corpo domina a cena
fala, diz o poema,
estende-te no desejo,
eleva-te na ternura,
na tua razão de ser corpo.

vive, diz o poema,
acima do que é banal
e pouco e raso.
são estes os dias
nos quais viver tem significado.

liberta-te, diz o poema,
e ama.
este é o teu destino.


silvia chueire

  Sábados   Há sábados que são uma gargalhada, uma exaltação do corpo, dos afetos. Há sábados a voar por aí que nos pertencem de...