Silvia Chueire
Se os dias, as palavras, os afetos a subirem-me pela face forem generosos e o meu olhar agudo,talvez escreva um poema, um conto. Por ora são anotações esparsas. In the meadow. Ao som do mar.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
olhar para trás
não há nostalgia,
dor,
ou arrependimento.
olhar para trás
traz a satisfação da vida bem vivida.
medo, ousadia, ansiedade, prazer,
perdas, ganhos, riso e lágrimas.
o vinho bem bebido,
a música embalando corpo e alma,
as palavras atadas ao afeto.
olhar para trás traz esta certeza:
viver é preciso.
Silvia Chueire
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Não sei
Há pessoas que têm as mãos cheias de poemas
e os cabelos e a alma.
- Bordam o dia com os versos mais inesperados –
Não sei de onde me surgem as palavras
ou o que fazer com elas.
Arranjá-las em meio à angústia
com o dia a bater-me na face.
Não sei.
Silvia Chueire
domingo, 17 de junho de 2012
elevar
retirar o silêncio dos olhos,
deixá-los mergulhar no céu,nas cores e faces humanas.
- desvelá-los -
retirar o silêncio das mãos,
deixá-las ser.
cada palavra
no seu frescor,
viva como riso
ou choro.
retomar a paixão,
corpo afora,
a elevar verbo e tempo.
silvia chueire
quarta-feira, 16 de maio de 2012
outono
nada das folhas secas e cores de terra,
o sol brilha na sua majestade tropical.
a cidade e seus seres apressados,
sorriem a desprezar as estações.
às vezes me faz falta a discrição
trazida pelo outono.
autumn
no dry leaves and earthly colours
of fall.
the sun shines in a tropical splendor.
the city and it’s
hasty creatures
smile with no regard for the seasons.
sometimes I miss the discretion
brought by autumn
quinta-feira, 15 de março de 2012
Primavera árabe
Rejubilam-se as almas lavadas de liberdade,
eu e meus irmãos súbito tocados pela luz.
Pertencem-me as palavras
para dizer o que eu queira!
Há algo além da alegria, neste dia de alegrias.
A felicidade é isto:
a conquista de nós mesmos,
de um lugar no mundo
sob as nossas vontades.
Sou mais irmã das minhas irmãs e irmãos,
porque sou eles e eles são eu.
Alaga o meu peito este amor compartilhado.
Um dia havíamos de amanhecer na primavera,
em todas as estações do ano !
Silvia Chueire
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Da poesia
Sussurro mínimo
ao longo do sol que se põe.
A sedução das perguntas,
da beleza.
A canção oculta entre palavras
pensamentos.
Dispersa pelo mundo.
A poesia dos dias
Silvia Chueire
ao longo do sol que se põe.
A sedução das perguntas,
da beleza.
A canção oculta entre palavras
pensamentos.
Dispersa pelo mundo.
A poesia dos dias
a salvar-me a sanidade.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Uma pedra
Há uma pedra na insônia.
São de pedra as nuvens carregadas e a voz calada.Um corpo pende no abismo.
como qualquer objeto.
Toda a consciência da pedra,
do sangue,
da microscópica importância da existência
se entrechocam .
Silvia Chueire
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Breve
Tão breve a vida,
o coração passando por um buraco de agulha,
as frases , as juras, os risos, os enganos,
a respiração subitamente contida,
a vaidade. A verdade?
Tão breve!
Silvia Chueire
o coração passando por um buraco de agulha,
as frases , as juras, os risos, os enganos,
a respiração subitamente contida,
a vaidade. A verdade?
Tão breve!
Silvia Chueire
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Cada parte
Cada parte encrespada do todo
é linha a separar vida e morte.
Cada parte a gritar ou inclinar a cabeça
é vento a passar pelo outro,
a passar por nós mesmos.
Cada parte encrespada do todo,
é pulso, lábio, palavra encantada.
Cada parte, eu, tu.
Cada parte, essência.
Silvia Chueire
é linha a separar vida e morte.
Cada parte a gritar ou inclinar a cabeça
é vento a passar pelo outro,
a passar por nós mesmos.
Cada parte encrespada do todo,
é pulso, lábio, palavra encantada.
Cada parte, eu, tu.
Cada parte, essência.
Silvia Chueire
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Sempre blues
Toca-me a pele um blues.
Sua voz de lamento e prazer
me conta o segredo da ressurreição.
Rio-me e choro
na simplicidade da resposta.
Por nem um minuto
se aquieta o corpo
ou a voz que canta.
Silvia Chueire
Sua voz de lamento e prazer
me conta o segredo da ressurreição.
Rio-me e choro
na simplicidade da resposta.
Por nem um minuto
se aquieta o corpo
ou a voz que canta.
Silvia Chueire
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Balé
Um balé com as pílulas,
uma qualquer idéia de esperança metida nelas
Até o fundo do fundo.
Tuas mãos
vazias.
Silvia Chueire
uma qualquer idéia de esperança metida nelas
Até o fundo do fundo.
Tuas mãos
vazias.
Silvia Chueire
sábado, 4 de dezembro de 2010
O som do trompete
O som do trompete em surdina
toca as palavras e as empurra
para a beira dos lábios.
Há ritmo no sangue acelerado,
música em uníssono.
O poema também é isto.
Silvia Chueire
toca as palavras e as empurra
para a beira dos lábios.
Há ritmo no sangue acelerado,
música em uníssono.
O poema também é isto.
Silvia Chueire
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Imersa
Há uma palavra imersa em meus sentidos,
um poema que não se pode dizer.
Faz do meu corpo seu país,
deita versos desalinhados
sobre mim.
Depois voa,
seu vôo de canção.
Silvia Chueire
um poema que não se pode dizer.
Faz do meu corpo seu país,
deita versos desalinhados
sobre mim.
Depois voa,
seu vôo de canção.
Silvia Chueire
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Nasce
Nasce, na opacidade das horas,
uma qualquer canção .
Uma palavra inquieta
a remexer-se:
um poema.
Silvia Chueire
uma qualquer canção .
Uma palavra inquieta
a remexer-se:
um poema.
Silvia Chueire
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Afronta
A insônia rebatida
nas casas banhadas
de sol
tem a marca
melancólica
do afastamento das coisas.
A beleza pode ser uma afronta.
Silvia Chueire
nas casas banhadas
de sol
tem a marca
melancólica
do afastamento das coisas.
A beleza pode ser uma afronta.
Silvia Chueire
domingo, 2 de maio de 2010
Hoje
É hoje o desabrochar da vida.
Esta conjunção
de palavras, pensamentos
e taquicardias.
Silvia Chueire
Esta conjunção
de palavras, pensamentos
e taquicardias.
Silvia Chueire
Pó
Tenho os pensamentos enredados
na grandeza da noite,
ela os empurra e confunde.
Meu corpo é um só contra o tempo e
tantas vezes se encolhe na angústia
de ignorar
o próximo fato definitivo.
Pó a temer pó.
Silvia Chueire
na grandeza da noite,
ela os empurra e confunde.
Meu corpo é um só contra o tempo e
tantas vezes se encolhe na angústia
de ignorar
o próximo fato definitivo.
Pó a temer pó.
Silvia Chueire
segunda-feira, 22 de março de 2010
levitar
o corpo levita
no centro da memória.
as mãos agem no claro-escuro
a enveredarem pela festa de imagens, sons.
levitam as palavras.
os olhos pensam que tudo é ilusão,
mas o corpo enlevado
se recusa a ouvi-los
e rodopia eufórico.
tomba a lógica
na claridade do mais dia dos dias:
tudo é como devia ser.
silvia chueire
no centro da memória.
as mãos agem no claro-escuro
a enveredarem pela festa de imagens, sons.
levitam as palavras.
os olhos pensam que tudo é ilusão,
mas o corpo enlevado
se recusa a ouvi-los
e rodopia eufórico.
tomba a lógica
na claridade do mais dia dos dias:
tudo é como devia ser.
silvia chueire
sexta-feira, 5 de março de 2010
nesta noite
entro nesta noite
com a navalha atravessada
nos dentes
os olhos procuram o mais agudo
da madrugada
a adrenalina arrepia
por baixo da pele
a palavra é fatal
silvia chueire
com a navalha atravessada
nos dentes
os olhos procuram o mais agudo
da madrugada
a adrenalina arrepia
por baixo da pele
a palavra é fatal
silvia chueire
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Lanças
Lanças o gesto:
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.
Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.
Gesto e palavra :
um só fim.
Silvia Chueire
asa a debater-se,
foice rasgando o pensamento,
olhos esquecidos de o serem.
Lanças a palavra:
arma mortal,
perdida na carne,
no cerne do outro.
Gesto e palavra :
um só fim.
Silvia Chueire
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Todos os dias
Todos os dias murmuras uma prece,
os lábios concentrados
em movimentos miúdos.
Todos os dias dizes seu nome sem perceberes.
Gravado na pedra da memória,
ele te vem à boca,
em chamas.
Todos os dias estremeces
a despeito da tua indiferença.
Inconfidente,
teu corpo te lembra que existes.
Silvia Chueire
os lábios concentrados
em movimentos miúdos.
Todos os dias dizes seu nome sem perceberes.
Gravado na pedra da memória,
ele te vem à boca,
em chamas.
Todos os dias estremeces
a despeito da tua indiferença.
Inconfidente,
teu corpo te lembra que existes.
Silvia Chueire
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Acabar
O poema não sabe
se o ano está acabando
e desembaraça palavras
há muito caladas no meu peito.
Perco-me entre elas,
a baterem-me sobre os olhos
feito música,
e o tempo
- que pode ser todo ou nenhum,
mas pulsa.
Silvia Chueire
se o ano está acabando
e desembaraça palavras
há muito caladas no meu peito.
Perco-me entre elas,
a baterem-me sobre os olhos
feito música,
e o tempo
- que pode ser todo ou nenhum,
mas pulsa.
Silvia Chueire
sábado, 2 de janeiro de 2010
Reveillon
Tenho os olhos mergulhados no céu
e flutuando pelo champanhe recém aberto;
Paco de Lucia dedilha Río de La Miel
e o poema vai tomando seu lugar entre os meus dedos.
Entre os meus dedos e a tela e a palavra e o desejo.
Lá fora o frisson dos fogos de artifício,
a ansiedade, a festa arrebatam a cidade.
Aqui a guitarra, castanholas
e a mulher a colher umas palavras.
Silvia Chueire
e flutuando pelo champanhe recém aberto;
Paco de Lucia dedilha Río de La Miel
e o poema vai tomando seu lugar entre os meus dedos.
Entre os meus dedos e a tela e a palavra e o desejo.
Lá fora o frisson dos fogos de artifício,
a ansiedade, a festa arrebatam a cidade.
Aqui a guitarra, castanholas
e a mulher a colher umas palavras.
Silvia Chueire
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Natal
Nesta noite eu os tenho a todos dentro dos olhos,
dentro dos braços.
A alegria e a ternura dançam nos sorrisos
e todos vêm a mim como se fosse ontem:
meus filhos e o Natal ,
o encantamento e o amor estampados.
Silvia Chueire
dentro dos braços.
A alegria e a ternura dançam nos sorrisos
e todos vêm a mim como se fosse ontem:
meus filhos e o Natal ,
o encantamento e o amor estampados.
Silvia Chueire
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Respiração
Abre o dia um cantar de pássaros.
O sol acende as nuvens
encostadas à rocha que vejo da varanda.
Suspeito que não sabes do que escrevo,
não somos mais um mesmo olhar para as coisas.
Entre fosco das nuvens e as paredes de pedra
há um mínimo espaço para respiração.
Se algo sobrevive neste espaço,
há de ser inseto ou angústia.
Silvia Chueire
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
No desterro
Era um corpo no desterro do silêncio.
Um corpo sem voz,
sem palavras que o sustentassem.
Era a dor cravada no corpo,
espinho, punhal.
Dor e ausência.
Era o corpo (quase) morto.
Silvia Chueire
Um corpo sem voz,
sem palavras que o sustentassem.
Era a dor cravada no corpo,
espinho, punhal.
Dor e ausência.
Era o corpo (quase) morto.
Silvia Chueire
terça-feira, 13 de outubro de 2009
não sucumbir
não sucumbir após anoitecer:
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
bruto
o azul bruto da noite é um abismo:
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
sexta-feira, 3 de julho de 2009
essência
há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
segunda-feira, 13 de abril de 2009
no verão
chove ainda,
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
quarta-feira, 4 de março de 2009
Março
A insônia deposita seus olhos lunares sobre mim
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
domingo, 8 de fevereiro de 2009
vitória
tens as mãos precárias
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
tempo
tempo I
colhe um sorriso sobre o tempo,
não te esqueças.
ninguém dirá em sã consciência
que a praia iluminada era eu,
mas tu sabes.
tempo II
não fales do teu tempo
fales das coisas a despeito dele;
em breve sobrevirá a noite,
as mãos e a boca paralisadas.
e tu serás
e não serás o mesmo.
silvia chueire
colhe um sorriso sobre o tempo,
não te esqueças.
ninguém dirá em sã consciência
que a praia iluminada era eu,
mas tu sabes.
tempo II
não fales do teu tempo
fales das coisas a despeito dele;
em breve sobrevirá a noite,
as mãos e a boca paralisadas.
e tu serás
e não serás o mesmo.
silvia chueire
sábado, 6 de dezembro de 2008
amor?
deito-me sobre tantas coisas inúteis
e me pergunto o que valerá
todo o esforço?
este poema banal
- qualquer deles -
trata-se de traduzir o intraduzível?
a avalanche de microacontecimentos
despencando pelo nosso dorso,
a pele respondendo elétrica;
entre os dedos a escapar-nos;
sob os olhos,
através dos nossos sexos,
e do cataclismo do gozo,
dos corpos,
ou dos pensamentos, que correm
à busca de significado.
o que valerá a minha presença sem sentido
neste mar de sentidos a entrechocarem-se,
neste caos, sem linguagem que o signifique
a não ser o amor que vivi,
vivo,
viverei?
silvia chueire
e me pergunto o que valerá
todo o esforço?
este poema banal
- qualquer deles -
trata-se de traduzir o intraduzível?
a avalanche de microacontecimentos
despencando pelo nosso dorso,
a pele respondendo elétrica;
entre os dedos a escapar-nos;
sob os olhos,
através dos nossos sexos,
e do cataclismo do gozo,
dos corpos,
ou dos pensamentos, que correm
à busca de significado.
o que valerá a minha presença sem sentido
neste mar de sentidos a entrechocarem-se,
neste caos, sem linguagem que o signifique
a não ser o amor que vivi,
vivo,
viverei?
silvia chueire
terça-feira, 18 de novembro de 2008
névoa
uma névoa de pestanas
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.
tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.
silvia chueire
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.
tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.
silvia chueire
sábado, 1 de novembro de 2008
tentação
às vezes escreves um verso,
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.
não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.
mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?
silvia chueire
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.
não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.
mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?
silvia chueire
terça-feira, 21 de outubro de 2008
descansarei
o mar e a música moura
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.
um dia lá descansarei, pensaste.
silvia chueire
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.
um dia lá descansarei, pensaste.
silvia chueire
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
pequeno pássaro
a mão é um pequeno pássaro
tocando a flor de laranjeira
pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente
silvia chueire
tocando a flor de laranjeira
pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente
silvia chueire
domingo, 28 de setembro de 2008
inesqueço
a visão do teu sorriso
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos
a calma a fúria
o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz
silvia chueire
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos
a calma a fúria
o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz
silvia chueire
domingo, 21 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
partido
há no sorriso partido uma tristeza de punhal.
pássaro a bater-se contra o vidro.
o corpo contra a parede
se pergunta qualquer coisa,
todas as coisas.
em vão.
a mão que naufraga o amor
nada responde.
silvia chueire
pássaro a bater-se contra o vidro.
o corpo contra a parede
se pergunta qualquer coisa,
todas as coisas.
em vão.
a mão que naufraga o amor
nada responde.
silvia chueire
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
de sede
meu lugar de sede
se alça sobre o tempo
e diz apenas um nome,
uma água como se fosse nome,
um nome feito um contraditório,.
silvia chueire
se alça sobre o tempo
e diz apenas um nome,
uma água como se fosse nome,
um nome feito um contraditório,.
silvia chueire
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Deserta
Caminhas na tua angústia enclausurada
no apartamento às três e cinco da manhã
e dizes : basta!
A cidade e o mar te olham desesperançados,
teus olhos se encontram com os deles a cada poema
que te escapa .
O sangue sobe-te à face,
não sabes se estás zangado
ou triste.
Algo te martela a pele
a pedir-te expressão,
sem possibilidades.
Não, dizes. Basta!
Mas dizer basta não te acalma a inquietude,
desejas o poema.
Afinal, o que é o poema
senão a tua voz a mostrar-te
que há vida ?
Calas-te.
Nada podes fazer,
não sabes onde se encontra o poema;
sequer sabes onde te encontras
na vida repentinamente deserta.
Silvia Chueire
no apartamento às três e cinco da manhã
e dizes : basta!
A cidade e o mar te olham desesperançados,
teus olhos se encontram com os deles a cada poema
que te escapa .
O sangue sobe-te à face,
não sabes se estás zangado
ou triste.
Algo te martela a pele
a pedir-te expressão,
sem possibilidades.
Não, dizes. Basta!
Mas dizer basta não te acalma a inquietude,
desejas o poema.
Afinal, o que é o poema
senão a tua voz a mostrar-te
que há vida ?
Calas-te.
Nada podes fazer,
não sabes onde se encontra o poema;
sequer sabes onde te encontras
na vida repentinamente deserta.
Silvia Chueire
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
o tédio
o tédio pode ser um vício
e a TV
e as pernas sobre o sofá da sala
- emaranhadas nos jornais
não lidos –
e os cabelos desesperadamente
em desalinho
- absoluta falta de música –
e o círculo repetitivo dos dias
silvia chueire
e a TV
e as pernas sobre o sofá da sala
- emaranhadas nos jornais
não lidos –
e os cabelos desesperadamente
em desalinho
- absoluta falta de música –
e o círculo repetitivo dos dias
silvia chueire
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
o sol
o sol nascia no meu peito
iluminando-me a face,
lembras-te?
podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.
podia(s) sabê-lo
no sorriso mais livre
que jamais me aconteceu.
silvia chueire
iluminando-me a face,
lembras-te?
podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.
podia(s) sabê-lo
no sorriso mais livre
que jamais me aconteceu.
silvia chueire
terça-feira, 29 de julho de 2008
puro
há as folhas elevadas
sobre o cinza da tarde
os pensamentos aquecidos
pelo mormaço
olhas em torno
sem suspeitar do mundo
- por instantes tudo é puro -
silvia chueire
sobre o cinza da tarde
os pensamentos aquecidos
pelo mormaço
olhas em torno
sem suspeitar do mundo
- por instantes tudo é puro -
silvia chueire
domingo, 27 de julho de 2008
um silêncio
há um silêncio escavado
no meio da pedra,
silêncio escavado
no meio da vida.
tão fundo, tão fundo,
é um grito .
silvia chueire
no meio da pedra,
silêncio escavado
no meio da vida.
tão fundo, tão fundo,
é um grito .
silvia chueire
sexta-feira, 18 de julho de 2008
hoje
tua alma estremecia
em meio à música de ontem,
o horizonte era ritmo e sol.
hoje é um dia suspenso,
assombra-te o silêncio,
a ausência de gestos,
o chumbo dos dias,
o lugar comum.
só o que tens são palavras,
a alma escapou-te.
silvia chueire
em meio à música de ontem,
o horizonte era ritmo e sol.
hoje é um dia suspenso,
assombra-te o silêncio,
a ausência de gestos,
o chumbo dos dias,
o lugar comum.
só o que tens são palavras,
a alma escapou-te.
silvia chueire
terça-feira, 8 de julho de 2008
reconhecer
um corpo lembra com exatidão
outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo,
quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo,
quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
quinta-feira, 3 de julho de 2008
sob as pálpebras
um mundo sob as pálpebras
a agitar-se na madrugada
palavras gestos
interrogações
e o teu silêncio
angústia e memória
a se atirarem incessantes
no lago dos olhos
silvia chueire
a agitar-se na madrugada
palavras gestos
interrogações
e o teu silêncio
angústia e memória
a se atirarem incessantes
no lago dos olhos
silvia chueire
sábado, 21 de junho de 2008
tornar-se
a pétala desdobra
sua canção acetinada
e rubra
contra o sol
a nascer dentro dela
torna-se uma rosa
quando me toca os olhos
silvia chueire
sua canção acetinada
e rubra
contra o sol
a nascer dentro dela
torna-se uma rosa
quando me toca os olhos
silvia chueire
sábado, 14 de junho de 2008
é noite
a lua deitada no Tejo
abre a estrada delirante ao poema
quando a vida bate às nossas costas,
rápida,
e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes
no meio da noite
e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido,
nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
abre a estrada delirante ao poema
quando a vida bate às nossas costas,
rápida,
e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes
no meio da noite
e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido,
nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
sábado, 7 de junho de 2008
o medo nas mãos
a mulher com o medo nas mãos,
na vida é apenas uma chama frágil
a esperar que o mundo lhe consuma.
o medo apertado na garganta,
a voz inexistente.
cantam os pássaros,
tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
na vida é apenas uma chama frágil
a esperar que o mundo lhe consuma.
o medo apertado na garganta,
a voz inexistente.
cantam os pássaros,
tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
sexta-feira, 30 de maio de 2008
sobre o corpo
ainda o corpo domina a cena
fala, diz o poema,
estende-te no desejo,
eleva-te na ternura,
na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema,
acima do que é banal
e pouco e raso.
são estes os dias
nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema,
e ama.
este é o teu destino.
silvia chueire
fala, diz o poema,
estende-te no desejo,
eleva-te na ternura,
na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema,
acima do que é banal
e pouco e raso.
são estes os dias
nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema,
e ama.
este é o teu destino.
silvia chueire
quarta-feira, 21 de maio de 2008
mentiras
como calar a voz, o corpo, a vida,
se tudo que bate no meu peito
é assombroso e vibra?
como inventar caminhos,
tecer estratégias,
se o desejo, a pele, a angústia,
que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim:
digo mentiras.
silvia chueire
se tudo que bate no meu peito
é assombroso e vibra?
como inventar caminhos,
tecer estratégias,
se o desejo, a pele, a angústia,
que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim:
digo mentiras.
silvia chueire
paris
para minha mãe
tenho esta cidade geneticamente
pregada na alma
revê-la é sorrir contigo,
cúmplice,
a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria
é também tua.
silvia chueire
tenho esta cidade geneticamente
pregada na alma
revê-la é sorrir contigo,
cúmplice,
a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria
é também tua.
silvia chueire
segunda-feira, 5 de maio de 2008
a cidade
a cidade sobe-me pelos dedos
e escreve o poema
canta uma canção ao sol
que surge tímido
entre as teclas dos acordeons
e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
e escreve o poema
canta uma canção ao sol
que surge tímido
entre as teclas dos acordeons
e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Diria o mar
Não sei como dirias este mar
onde o sol de entre as nuvens se absorve
em clamores de espuma luminosa
N.D.
Diria o mar como um deslimite,
um universo onde criaturas voam
um bailado de liberdade.
Nós as olhamos,
feito seres impotentes.
Olhamos para cima
as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino
que divino, mas humano, nos entrega
incondicionalmente.
Nunca sabemos bem o que fazer com ele,
a grandeza a erguer-se ou mergulhar
aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão,
acima e abaixo dos desertos,
das rochas,
da terra onde bate incessante
e à qual pertencemos
tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
onde o sol de entre as nuvens se absorve
em clamores de espuma luminosa
N.D.
Diria o mar como um deslimite,
um universo onde criaturas voam
um bailado de liberdade.
Nós as olhamos,
feito seres impotentes.
Olhamos para cima
as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino
que divino, mas humano, nos entrega
incondicionalmente.
Nunca sabemos bem o que fazer com ele,
a grandeza a erguer-se ou mergulhar
aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão,
acima e abaixo dos desertos,
das rochas,
da terra onde bate incessante
e à qual pertencemos
tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
quarta-feira, 23 de abril de 2008
o sol
elevamo-nos solares
algum dia,
em alguma terra habitada pelas oliveiras.
tinhas as mãos cheias de mim
aproximavas teus lábios dos meus cabelos
e me dizias tudo,
depois depositava-os nos meus ombros.
éramos o sol ,
a exaltação da vida.
silvia chueire
algum dia,
em alguma terra habitada pelas oliveiras.
tinhas as mãos cheias de mim
aproximavas teus lábios dos meus cabelos
e me dizias tudo,
depois depositava-os nos meus ombros.
éramos o sol ,
a exaltação da vida.
silvia chueire
segunda-feira, 14 de abril de 2008
há um corpo
há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.
há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.
silvia chueire
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.
há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.
silvia chueire
sexta-feira, 11 de abril de 2008
um sonho
era um sonho leve
um sonho
xxxxxum pássaro de asas de fogo
era um sonho em combustão
suspensos sobre ele
xxxxxos corpos marejados
era um sonho leve
podia-se
carregá-lo com alegria
a um pássaro assim
não se cortam
xxxxxas asas
não se entrega
xxxxxà própria sorte
era um pássaroxxxxeste sonho
e sua conseqüência
em vôo
xxxxxa culminar no espaço
éramos nós
percebi claramente
xxxxxantes de morrer
silvia chueire
um sonho
xxxxxum pássaro de asas de fogo
era um sonho em combustão
suspensos sobre ele
xxxxxos corpos marejados
era um sonho leve
podia-se
carregá-lo com alegria
a um pássaro assim
não se cortam
xxxxxas asas
não se entrega
xxxxxà própria sorte
era um pássaroxxxxeste sonho
e sua conseqüência
em vôo
xxxxxa culminar no espaço
éramos nós
percebi claramente
xxxxxantes de morrer
silvia chueire
segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo
domingo os meus olhos dormem de ti
as horas andam lentamente sob a chuva
adormecida a urgência
o mundo descansa pacífico
- quase não respira -
silvia chueire
domingo
domingo mis ojos se duermen de ti
las horas caminan despacio bajo la lluvia
adormecida la urgencia
el mundo descansa pacífico
- casi no respira -
silvia chueire
as horas andam lentamente sob a chuva
adormecida a urgência
o mundo descansa pacífico
- quase não respira -
silvia chueire
domingo
domingo mis ojos se duermen de ti
las horas caminan despacio bajo la lluvia
adormecida la urgencia
el mundo descansa pacífico
- casi no respira -
silvia chueire
quinta-feira, 3 de abril de 2008
meu país
meu país era uma alma desolada
e funda
um corpo esquecido em meio
aos tamborins do samba.
silvia chueire
e funda
um corpo esquecido em meio
aos tamborins do samba.
silvia chueire
segunda-feira, 31 de março de 2008
quinta-feira, 27 de março de 2008
dois poemas curtos
cimitarra
a lua é uma cimitarra
rasga o céu
sangra no mar
tudo mais
é silêncio
silvia chueire
plausível
a sombra da tua ausência
a conversar comigo
na hora inusitada do dia
como se fosse ela
- ou eu? -
a (ir)realidade mais plausível
silvia chueire
a lua é uma cimitarra
rasga o céu
sangra no mar
tudo mais
é silêncio
silvia chueire
plausível
a sombra da tua ausência
a conversar comigo
na hora inusitada do dia
como se fosse ela
- ou eu? -
a (ir)realidade mais plausível
silvia chueire
domingo, 23 de março de 2008
pássaros e peixes
nossas bocas mergulhadas,
nossos sexos,
elevando-nos
a pássaros ou peixes
no corte agudo do tempo.
silvia chueire
nossos sexos,
elevando-nos
a pássaros ou peixes
no corte agudo do tempo.
silvia chueire
quinta-feira, 20 de março de 2008
dois poemas curtos
lembrança
às vezes a tua lembrança é suave
apenas pousa na tarde
e acaricia a minha pele.
silvia chueire
desalento
quantos corpos percorrerás
desalentado
por não me encontrares
neles?
silvia chueire
às vezes a tua lembrança é suave
apenas pousa na tarde
e acaricia a minha pele.
silvia chueire
desalento
quantos corpos percorrerás
desalentado
por não me encontrares
neles?
silvia chueire
segunda-feira, 17 de março de 2008
encontro
meu corpo é líquido
a água é seu meio natural
não seu habitat
ou um retorno no tempo
o mergulho do corpo na água é o encontro
a indizível sensação de pertinência
silvia chueire
a água é seu meio natural
não seu habitat
ou um retorno no tempo
o mergulho do corpo na água é o encontro
a indizível sensação de pertinência
silvia chueire
domingo, 16 de março de 2008
um poema de 2004
se
se todas as palavras forem gestos
e todos os gestos, corpo e alma
e todo corpo e alma for delírio
e todo delírio, gozo
e todo gozo for abismo
e todo abismo, nossa natureza
e toda natureza for palavras
e todas as palavras novamente gestos
e todos os gestos, canções
e todas as canções, amor
e todo o amor for vida
e toda vida for suspiro
e todos os suspiros, sentimento
e todo sentimento, poema
e todo poema, o sentido
ajoelhado frente à brevidade
de todas as coisas
aí então, tudo terá valido a pena
silvia chueire
se todas as palavras forem gestos
e todos os gestos, corpo e alma
e todo corpo e alma for delírio
e todo delírio, gozo
e todo gozo for abismo
e todo abismo, nossa natureza
e toda natureza for palavras
e todas as palavras novamente gestos
e todos os gestos, canções
e todas as canções, amor
e todo o amor for vida
e toda vida for suspiro
e todos os suspiros, sentimento
e todo sentimento, poema
e todo poema, o sentido
ajoelhado frente à brevidade
de todas as coisas
aí então, tudo terá valido a pena
silvia chueire
quarta-feira, 12 de março de 2008
hibiscos
quinta-feira, 6 de março de 2008
nem uma palavra
nem uma palavra se move
entre as minhas mãos,
nem acena um gesto;
o silêncio é uma longa noite sem lua.
ladram lá fora os cães
inquietos com o escuro
e as sombras que se movem no escuro
à luz escassa de uma janela solitária.
cá dentro ladra a angústia.
na calada das horas
mesmo o pensamento é furtivo.
tudo é ausência, sem recurso.
silvia chueire
entre as minhas mãos,
nem acena um gesto;
o silêncio é uma longa noite sem lua.
ladram lá fora os cães
inquietos com o escuro
e as sombras que se movem no escuro
à luz escassa de uma janela solitária.
cá dentro ladra a angústia.
na calada das horas
mesmo o pensamento é furtivo.
tudo é ausência, sem recurso.
silvia chueire
domingo, 2 de março de 2008
dois poemas breves
tocar
tens as mãos não-mãos
a língua as palavras
o sonho
que me tocam
tanto
e tão
inevitavelmente
silvia chueire
jasmins
é madrugada, o verão ignora
que o inventamos
e o inesperado perfume dos jasmins
cola-se às calçadas, às pessoas,
desatando a memória de outras noites.
no sorriso do reencontro
com a cidade, o encantamento.
silvia chueire
tens as mãos não-mãos
a língua as palavras
o sonho
que me tocam
tanto
e tão
inevitavelmente
silvia chueire
jasmins
é madrugada, o verão ignora
que o inventamos
e o inesperado perfume dos jasmins
cola-se às calçadas, às pessoas,
desatando a memória de outras noites.
no sorriso do reencontro
com a cidade, o encantamento.
silvia chueire
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
alegria
o poema
tantas vezes hesita,
tantas vezes estremece nas minhas mãos
a procurar palavras.
é grande a alegria
quando se deposita nelas.
silvia chueire
tantas vezes hesita,
tantas vezes estremece nas minhas mãos
a procurar palavras.
é grande a alegria
quando se deposita nelas.
silvia chueire
sábado, 23 de fevereiro de 2008
fim da tarde
ao fim da tarde
os olhos, pálpebras semicerradas,
são também crepúsculo,
corpo entregue ao amor.
cores sobre o mundo,
dia, noite,
riso e sussurro.
silvia chueire
os olhos, pálpebras semicerradas,
são também crepúsculo,
corpo entregue ao amor.
cores sobre o mundo,
dia, noite,
riso e sussurro.
silvia chueire
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
tocas-me
tocas-me
e és um inesperado rio
a me atravessar
um inesperado sorriso
tocas-me
e para além do desejo
tenho a ternura nas mãos
silvia chueire
e és um inesperado rio
a me atravessar
um inesperado sorriso
tocas-me
e para além do desejo
tenho a ternura nas mãos
silvia chueire
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
esqueces
baixas as pálpebras
para que teus olhos não me vejam.
esqueces que vivo dentro deles
(hesitei tantos séculos
até me aventurar por estes precipícios).
silvia chueire
para que teus olhos não me vejam.
esqueces que vivo dentro deles
(hesitei tantos séculos
até me aventurar por estes precipícios).
silvia chueire
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Flores ou facas
Cabem flores ou facas
no meu pensamento.
Fio ou perfume a nascerem
conforme o dia.
Tomo ambos com o mesmo cuidado;
ambos têm uma fraqueza
irrecusável.
Silvia Chueire
no meu pensamento.
Fio ou perfume a nascerem
conforme o dia.
Tomo ambos com o mesmo cuidado;
ambos têm uma fraqueza
irrecusável.
Silvia Chueire
sábado, 2 de fevereiro de 2008
contíguos :
pássaros
I
voa um pássaro agudo
contra o céu
da cidade incendiada
seguem-no os olhos
e a pele
no auge do verão
---------------------------
II
meu corpo é um pássaro agudo
sob o céu de verão
mergulha no mar
na vertigem
hoje como se fosse sempre
silvia chueire
I
voa um pássaro agudo
contra o céu
da cidade incendiada
seguem-no os olhos
e a pele
no auge do verão
---------------------------
II
meu corpo é um pássaro agudo
sob o céu de verão
mergulha no mar
na vertigem
hoje como se fosse sempre
silvia chueire
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
domingo
um dia pode parecer um ano
se olho para a pujança da mata
a ser invadida pelas casas
as nuvens pesam sobre o morro
e há tanto a dizer
mas o silêncio anda colado ao tempo
e pesa com o domingo
silvia chueire
se olho para a pujança da mata
a ser invadida pelas casas
as nuvens pesam sobre o morro
e há tanto a dizer
mas o silêncio anda colado ao tempo
e pesa com o domingo
silvia chueire
sábado, 26 de janeiro de 2008
minha
tua lâmina me acaricia o pescoço,
desce-me pelo colo,
toca-me o ventre.
a lâmina do teu desejo
é minha.
silvia chueire
desce-me pelo colo,
toca-me o ventre.
a lâmina do teu desejo
é minha.
silvia chueire
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
dois poemas curtos
última
uma última palavra no ano
martela os minutos
uma palavra esculpida
pelo vento
adeus
teu país
pronunciei ternamente
o nome do teu país
ele era meu
na combustão da tarde
silvia chueire
uma última palavra no ano
martela os minutos
uma palavra esculpida
pelo vento
adeus
teu país
pronunciei ternamente
o nome do teu país
ele era meu
na combustão da tarde
silvia chueire
domingo, 20 de janeiro de 2008
nada fica no tempo
nada fica no tempo
nem a memória do riso
a sacudir-me de puro prazer
quando me falas
nem o absoluto estremecer
do meu corpo
quando me beijas
nada fica
mas enquanto estão aqui
são a razão e o sentido
de tudo
silvia chueire
nem a memória do riso
a sacudir-me de puro prazer
quando me falas
nem o absoluto estremecer
do meu corpo
quando me beijas
nada fica
mas enquanto estão aqui
são a razão e o sentido
de tudo
silvia chueire
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
dorme
dorme entre os dedos
a rosa viva
no meio da noite
e os lábios dizem
a palavra impossível
lâmina em meio ao delírio.
no escuro os olhos cantam
uma canção liberta
o corpo desorientado
sabe apenas ser corpo
uma harpa estremece,
embala os cabelos
a irem e virem
e um nome improvável.
silvia chueire
a rosa viva
no meio da noite
e os lábios dizem
a palavra impossível
lâmina em meio ao delírio.
no escuro os olhos cantam
uma canção liberta
o corpo desorientado
sabe apenas ser corpo
uma harpa estremece,
embala os cabelos
a irem e virem
e um nome improvável.
silvia chueire
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
mais uma
só mais uma noite
no auge do verão.
não importa se estás surda ou muda,
se as árvores se mexem ao vento,
o ar te queima a paz,
se a angústia te agarra as pernas,
ou mais um ano se vai.
é uma noite apenas.
silvia chueire
no auge do verão.
não importa se estás surda ou muda,
se as árvores se mexem ao vento,
o ar te queima a paz,
se a angústia te agarra as pernas,
ou mais um ano se vai.
é uma noite apenas.
silvia chueire
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
não espero
eu tinha sentimentos vagos e pensava
que o mundo era assim
não previa a geometria de cada gesto
a expectativa da morte alheia
não estava nos meus planos
- talvez estivesse, disseram-me –
sob as minhas pálpebras
derramavam-se inquietações
aprendi a ter calma
dei-lhes as mãos
dormi com elas
não concebia outro corpo como se fosse meu
perdia-me em baladas noturnas
pelo gosto acre doce
do sol a nascer
vivia cada horizonte diário
cada horizonte, o último
hoje não me evado do silêncio
deixo-me nele
numa nostalgia estúpida do que não
nada espero
silvia chueire
eu tinha sentimentos vagos e pensava
que o mundo era assim
não previa a geometria de cada gesto
a expectativa da morte alheia
não estava nos meus planos
- talvez estivesse, disseram-me –
sob as minhas pálpebras
derramavam-se inquietações
aprendi a ter calma
dei-lhes as mãos
dormi com elas
não concebia outro corpo como se fosse meu
perdia-me em baladas noturnas
pelo gosto acre doce
do sol a nascer
vivia cada horizonte diário
cada horizonte, o último
hoje não me evado do silêncio
deixo-me nele
numa nostalgia estúpida do que não
nada espero
silvia chueire
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
um dia
um dia o corpo acende os olhos
e tudo aconteceu
não viu Ipanema aos domingos
e o samba na Lapa
um dia o corpo acorda
acendido por uns olhos
ou pelo mar
e acha graça em si mesmo
um dia o corpo ri desatado
na plenitude de o ser
porque o tempo é uma invenção
da qual ninguém escapa
mas tomamos a vida nas mãos
e a bebemos
silvia chueire
um dia o corpo acende os olhos
e tudo aconteceu
não viu Ipanema aos domingos
e o samba na Lapa
um dia o corpo acorda
acendido por uns olhos
ou pelo mar
e acha graça em si mesmo
um dia o corpo ri desatado
na plenitude de o ser
porque o tempo é uma invenção
da qual ninguém escapa
mas tomamos a vida nas mãos
e a bebemos
silvia chueire
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
sábado, 15 de dezembro de 2007
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
o passo adiante
dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .
o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.
o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.
o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.
o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados
frente ao humano trêmulo que és,
a desejar a morte.
a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante, um peso insuportável.
silvia chueire
dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .
o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.
o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.
o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.
o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados
frente ao humano trêmulo que és,
a desejar a morte.
a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante, um peso insuportável.
silvia chueire
domingo, 9 de dezembro de 2007
Contextualizar
O poema é aleatório e chama.
Não sei porque chama,
porque arde,
nem como as palavras nascem
na cabeça e nas mãos
que se apressam a segui-la.
Nem como se organizam
as pequenas habitações do olhar,
palpitando sonoras,
vivas,
a me empurrarem para ele.
Não sei o modo do som
a me tomar a voz.
Só sei o relâmpago
a encher as folhas de palavras.
A paixão.
Silvia Chueire
O poema é aleatório e chama.
Não sei porque chama,
porque arde,
nem como as palavras nascem
na cabeça e nas mãos
que se apressam a segui-la.
Nem como se organizam
as pequenas habitações do olhar,
palpitando sonoras,
vivas,
a me empurrarem para ele.
Não sei o modo do som
a me tomar a voz.
Só sei o relâmpago
a encher as folhas de palavras.
A paixão.
Silvia Chueire
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
dá-me a tua mão
dá-me a tua mão,
para que eu possa decifrar
contigo o mistério
segredado pela noite,
agarrada aos corpos dos amantes.
este mistério que já nos passou,
cada um a seu tempo;
um sopro,
e se perdeu de nós.
dá-me tua mão,
para caminharmos loucamente
a rir do que se foi
e não nos pesa na memória.
dá-me tua mão,
para esquecermos tudo,
no oceano as cabeças
mergulhadas;
os corpos.
silvia chueire
dá-me a tua mão,
para que eu possa decifrar
contigo o mistério
segredado pela noite,
agarrada aos corpos dos amantes.
este mistério que já nos passou,
cada um a seu tempo;
um sopro,
e se perdeu de nós.
dá-me tua mão,
para caminharmos loucamente
a rir do que se foi
e não nos pesa na memória.
dá-me tua mão,
para esquecermos tudo,
no oceano as cabeças
mergulhadas;
os corpos.
silvia chueire
sábado, 1 de dezembro de 2007
sobre acontecer
os dias são um vazio estranho,
tempo sem significado.
os olhos olham perplexos para a vida,
infamiliares com a ausência de acontecimentos.
chove mas não há ruídos,
faz sol mas não há calor,
fala-se e não se ouve voz,
dão-se passos na imobilidade.
tudo é ar parado,
reincidência de rotinas.
as perguntas teimam e teimam,
a nos beliscarem o corpo.
o que é um acontecimento,
a construção do tempo?
silvia chueire
os dias são um vazio estranho,
tempo sem significado.
os olhos olham perplexos para a vida,
infamiliares com a ausência de acontecimentos.
chove mas não há ruídos,
faz sol mas não há calor,
fala-se e não se ouve voz,
dão-se passos na imobilidade.
tudo é ar parado,
reincidência de rotinas.
as perguntas teimam e teimam,
a nos beliscarem o corpo.
o que é um acontecimento,
a construção do tempo?
silvia chueire
domingo, 25 de novembro de 2007
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
sábado, 17 de novembro de 2007
neo-real
o poema passeia pela cidade
tropeçando nas pernas dos transeuntes.
deambula cheio de hesitação,
a pensar se o revólver
carregado pelo menino
-e sua vida curta-
estará em algum verso.
a duvidar que a existência
vivida no ápice do desprezo pela vida,
na ponta de uma bala,
contenha em si algum lirismo.
talvez um violento lirismo neo-real
que dá a mão aos dramas mais comuns.
lá os dias são facas.
silvia chueire
tropeçando nas pernas dos transeuntes.
deambula cheio de hesitação,
a pensar se o revólver
carregado pelo menino
-e sua vida curta-
estará em algum verso.
a duvidar que a existência
vivida no ápice do desprezo pela vida,
na ponta de uma bala,
contenha em si algum lirismo.
talvez um violento lirismo neo-real
que dá a mão aos dramas mais comuns.
lá os dias são facas.
silvia chueire
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
a dor
a dor é um travo
um cravo na pele
amargo no sangue
espesso a circular
no coração cheio de cansaço
a dor é um cravo
a perfumar a noite
bate a angústia nas vidraças
a fraturar a calma
canta alto na madrugada
de insônias
inunda os nossos olhos
afoga-os
mastiga o sentido da vida
silvia chueire
um cravo na pele
amargo no sangue
espesso a circular
no coração cheio de cansaço
a dor é um cravo
a perfumar a noite
bate a angústia nas vidraças
a fraturar a calma
canta alto na madrugada
de insônias
inunda os nossos olhos
afoga-os
mastiga o sentido da vida
silvia chueire
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