Se os dias, as palavras, os afetos a subirem-me pela face forem generosos e o meu olhar agudo,talvez escreva um poema, um conto. Por ora são anotações esparsas. In the meadow. Ao som do mar.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
não sucumbir
não sucumbir após anoitecer:
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
beber as palavras da memória,
viver no ápice da pulsação
- o sopro do dia roçando-te a face
a cada momento.
silvia chueire
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
bruto
o azul bruto da noite é um abismo:
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
cala-me a voz
ou a desata.
grito ou silêncio absoluto,
poema ou circunstância,
o azulnegro da noite bate no meu peito.
silvia chueire
sexta-feira, 3 de julho de 2009
essência
há um blues traçado
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
entre as minhas palavras
e as minhas mãos,
a equilibrar-se frágil como lágrima.
lamento e riso tocam as minhas pálpebras,
ritmo e desconsolo apontam caminhos
entre os meus cabelos.
deixo-me levar.
silvia chueire
segunda-feira, 13 de abril de 2009
no verão
chove ainda,
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
o verão se aproxima lentamente.
a cidade se agarra às cores,
respira-as;
cola-se aos azuis, verdes,
vermelhos,
pega-as com cuidado.
vida a depender delas.
o verão é um dos poemas da cidade.
o povo bebe de má vontade
esta chuva fina a molhar-lhe os pés
e o olhar.
espera pela canção das cores e do sol,
dos risos alagados pelo mar,
do suor a fazer brilharem os corpos
e o desejo.
naturalmente.
silvia chueire
quarta-feira, 4 de março de 2009
Março
A insônia deposita seus olhos lunares sobre mim
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
e diz um verso distante
com todo o oceano de permeio. E o trabalho,
as dúvidas, o grito claro da angústia,
a música desaparecida
da tua voz a me dizer alguma coisa, o tempo.
Março é chegado.
Tem uma força que me custa resistir.
Sou demasiado pequena,
frágil em meio às ondas.
Às vezes a morte parece tão próxima,
tudo tão subitamente fútil.
Às vezes espero.
Março. De olhos postos em mim.
Silvia Chueire
domingo, 8 de fevereiro de 2009
vitória
tens as mãos precárias
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
a marcarem a memória
humanamente física do meu corpo
não as consigo tirar da pele
ainda que o oceano seja imenso
e o tempo absurdamente presente
haverá uma ironia vaga
na vitória da matéria ?
silvia chueire
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
tempo
tempo I
colhe um sorriso sobre o tempo,
não te esqueças.
ninguém dirá em sã consciência
que a praia iluminada era eu,
mas tu sabes.
tempo II
não fales do teu tempo
fales das coisas a despeito dele;
em breve sobrevirá a noite,
as mãos e a boca paralisadas.
e tu serás
e não serás o mesmo.
silvia chueire
colhe um sorriso sobre o tempo,
não te esqueças.
ninguém dirá em sã consciência
que a praia iluminada era eu,
mas tu sabes.
tempo II
não fales do teu tempo
fales das coisas a despeito dele;
em breve sobrevirá a noite,
as mãos e a boca paralisadas.
e tu serás
e não serás o mesmo.
silvia chueire
sábado, 6 de dezembro de 2008
amor?
deito-me sobre tantas coisas inúteis
e me pergunto o que valerá
todo o esforço?
este poema banal
- qualquer deles -
trata-se de traduzir o intraduzível?
a avalanche de microacontecimentos
despencando pelo nosso dorso,
a pele respondendo elétrica;
entre os dedos a escapar-nos;
sob os olhos,
através dos nossos sexos,
e do cataclismo do gozo,
dos corpos,
ou dos pensamentos, que correm
à busca de significado.
o que valerá a minha presença sem sentido
neste mar de sentidos a entrechocarem-se,
neste caos, sem linguagem que o signifique
a não ser o amor que vivi,
vivo,
viverei?
silvia chueire
e me pergunto o que valerá
todo o esforço?
este poema banal
- qualquer deles -
trata-se de traduzir o intraduzível?
a avalanche de microacontecimentos
despencando pelo nosso dorso,
a pele respondendo elétrica;
entre os dedos a escapar-nos;
sob os olhos,
através dos nossos sexos,
e do cataclismo do gozo,
dos corpos,
ou dos pensamentos, que correm
à busca de significado.
o que valerá a minha presença sem sentido
neste mar de sentidos a entrechocarem-se,
neste caos, sem linguagem que o signifique
a não ser o amor que vivi,
vivo,
viverei?
silvia chueire
terça-feira, 18 de novembro de 2008
névoa
uma névoa de pestanas
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.
tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.
silvia chueire
e sentidos
vêm-me os olhos,
quando levantas suavemente
o lençol
que me cobre.
tua mão, o tecido,
são o poema a percorrer meu corpo.
silvia chueire
sábado, 1 de novembro de 2008
tentação
às vezes escreves um verso,
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.
não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.
mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?
silvia chueire
na tentação dos afetos te escaparem
pelos dedos.
não, pensas.
teus versos hão que refletir
apenas a vida que sobe
pelas escarpas de granito
e cresce entre as folhas das árvores.
mas o que fazer
se a ternura derrama-te pelos olhos?
silvia chueire
terça-feira, 21 de outubro de 2008
descansarei
o mar e a música moura
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.
um dia lá descansarei, pensaste.
silvia chueire
impregnando as paredes
a torre antiga da igreja esbatida ao sol
e a casa abandonada a esperar.
um dia lá descansarei, pensaste.
silvia chueire
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
pequeno pássaro
a mão é um pequeno pássaro
tocando a flor de laranjeira
pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente
silvia chueire
tocando a flor de laranjeira
pássaro e flor:
poema inesperado desabrochando
sob o sol nascente
silvia chueire
domingo, 28 de setembro de 2008
inesqueço
a visão do teu sorriso
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos
a calma a fúria
o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz
silvia chueire
pousado nos meus olhos
nas minhas mãos
a calma a fúria
o desejo marítimo
nos corpos banhados de luz
silvia chueire
domingo, 21 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
partido
há no sorriso partido uma tristeza de punhal.
pássaro a bater-se contra o vidro.
o corpo contra a parede
se pergunta qualquer coisa,
todas as coisas.
em vão.
a mão que naufraga o amor
nada responde.
silvia chueire
pássaro a bater-se contra o vidro.
o corpo contra a parede
se pergunta qualquer coisa,
todas as coisas.
em vão.
a mão que naufraga o amor
nada responde.
silvia chueire
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
de sede
meu lugar de sede
se alça sobre o tempo
e diz apenas um nome,
uma água como se fosse nome,
um nome feito um contraditório,.
silvia chueire
se alça sobre o tempo
e diz apenas um nome,
uma água como se fosse nome,
um nome feito um contraditório,.
silvia chueire
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Deserta
Caminhas na tua angústia enclausurada
no apartamento às três e cinco da manhã
e dizes : basta!
A cidade e o mar te olham desesperançados,
teus olhos se encontram com os deles a cada poema
que te escapa .
O sangue sobe-te à face,
não sabes se estás zangado
ou triste.
Algo te martela a pele
a pedir-te expressão,
sem possibilidades.
Não, dizes. Basta!
Mas dizer basta não te acalma a inquietude,
desejas o poema.
Afinal, o que é o poema
senão a tua voz a mostrar-te
que há vida ?
Calas-te.
Nada podes fazer,
não sabes onde se encontra o poema;
sequer sabes onde te encontras
na vida repentinamente deserta.
Silvia Chueire
no apartamento às três e cinco da manhã
e dizes : basta!
A cidade e o mar te olham desesperançados,
teus olhos se encontram com os deles a cada poema
que te escapa .
O sangue sobe-te à face,
não sabes se estás zangado
ou triste.
Algo te martela a pele
a pedir-te expressão,
sem possibilidades.
Não, dizes. Basta!
Mas dizer basta não te acalma a inquietude,
desejas o poema.
Afinal, o que é o poema
senão a tua voz a mostrar-te
que há vida ?
Calas-te.
Nada podes fazer,
não sabes onde se encontra o poema;
sequer sabes onde te encontras
na vida repentinamente deserta.
Silvia Chueire
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
o tédio
o tédio pode ser um vício
e a TV
e as pernas sobre o sofá da sala
- emaranhadas nos jornais
não lidos –
e os cabelos desesperadamente
em desalinho
- absoluta falta de música –
e o círculo repetitivo dos dias
silvia chueire
e a TV
e as pernas sobre o sofá da sala
- emaranhadas nos jornais
não lidos –
e os cabelos desesperadamente
em desalinho
- absoluta falta de música –
e o círculo repetitivo dos dias
silvia chueire
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
o sol
o sol nascia no meu peito
iluminando-me a face,
lembras-te?
podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.
podia(s) sabê-lo
no sorriso mais livre
que jamais me aconteceu.
silvia chueire
iluminando-me a face,
lembras-te?
podia(s) senti-lo a tocar-me a pele.
podia(s) sabê-lo
no sorriso mais livre
que jamais me aconteceu.
silvia chueire
terça-feira, 29 de julho de 2008
puro
há as folhas elevadas
sobre o cinza da tarde
os pensamentos aquecidos
pelo mormaço
olhas em torno
sem suspeitar do mundo
- por instantes tudo é puro -
silvia chueire
sobre o cinza da tarde
os pensamentos aquecidos
pelo mormaço
olhas em torno
sem suspeitar do mundo
- por instantes tudo é puro -
silvia chueire
domingo, 27 de julho de 2008
um silêncio
há um silêncio escavado
no meio da pedra,
silêncio escavado
no meio da vida.
tão fundo, tão fundo,
é um grito .
silvia chueire
no meio da pedra,
silêncio escavado
no meio da vida.
tão fundo, tão fundo,
é um grito .
silvia chueire
sexta-feira, 18 de julho de 2008
hoje
tua alma estremecia
em meio à música de ontem,
o horizonte era ritmo e sol.
hoje é um dia suspenso,
assombra-te o silêncio,
a ausência de gestos,
o chumbo dos dias,
o lugar comum.
só o que tens são palavras,
a alma escapou-te.
silvia chueire
em meio à música de ontem,
o horizonte era ritmo e sol.
hoje é um dia suspenso,
assombra-te o silêncio,
a ausência de gestos,
o chumbo dos dias,
o lugar comum.
só o que tens são palavras,
a alma escapou-te.
silvia chueire
terça-feira, 8 de julho de 2008
reconhecer
um corpo lembra com exatidão
outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo,
quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
outro corpo.
reconhece-o por sobre o tempo,
quando aquele é seu lugar definitivo.
silvia chueire
quinta-feira, 3 de julho de 2008
sob as pálpebras
um mundo sob as pálpebras
a agitar-se na madrugada
palavras gestos
interrogações
e o teu silêncio
angústia e memória
a se atirarem incessantes
no lago dos olhos
silvia chueire
a agitar-se na madrugada
palavras gestos
interrogações
e o teu silêncio
angústia e memória
a se atirarem incessantes
no lago dos olhos
silvia chueire
sábado, 21 de junho de 2008
tornar-se
a pétala desdobra
sua canção acetinada
e rubra
contra o sol
a nascer dentro dela
torna-se uma rosa
quando me toca os olhos
silvia chueire
sua canção acetinada
e rubra
contra o sol
a nascer dentro dela
torna-se uma rosa
quando me toca os olhos
silvia chueire
sábado, 14 de junho de 2008
é noite
a lua deitada no Tejo
abre a estrada delirante ao poema
quando a vida bate às nossas costas,
rápida,
e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes
no meio da noite
e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido,
nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
abre a estrada delirante ao poema
quando a vida bate às nossas costas,
rápida,
e temos palavras coladas a nós.
o vinho faz subirem as vozes
no meio da noite
e o afeto nos ilumina.
súbito tudo parece resolvido,
nossas mãos dadas cantam na desordem do mundo.
silvia chueire
sábado, 7 de junho de 2008
o medo nas mãos
a mulher com o medo nas mãos,
na vida é apenas uma chama frágil
a esperar que o mundo lhe consuma.
o medo apertado na garganta,
a voz inexistente.
cantam os pássaros,
tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
na vida é apenas uma chama frágil
a esperar que o mundo lhe consuma.
o medo apertado na garganta,
a voz inexistente.
cantam os pássaros,
tudo está aceleradamente de passagem.
silvia chueire
sexta-feira, 30 de maio de 2008
sobre o corpo
ainda o corpo domina a cena
fala, diz o poema,
estende-te no desejo,
eleva-te na ternura,
na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema,
acima do que é banal
e pouco e raso.
são estes os dias
nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema,
e ama.
este é o teu destino.
silvia chueire
fala, diz o poema,
estende-te no desejo,
eleva-te na ternura,
na tua razão de ser corpo.
vive, diz o poema,
acima do que é banal
e pouco e raso.
são estes os dias
nos quais viver tem significado.
liberta-te, diz o poema,
e ama.
este é o teu destino.
silvia chueire
quarta-feira, 21 de maio de 2008
mentiras
como calar a voz, o corpo, a vida,
se tudo que bate no meu peito
é assombroso e vibra?
como inventar caminhos,
tecer estratégias,
se o desejo, a pele, a angústia,
que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim:
digo mentiras.
silvia chueire
se tudo que bate no meu peito
é assombroso e vibra?
como inventar caminhos,
tecer estratégias,
se o desejo, a pele, a angústia,
que são meus são teus?
um dia eu paro de escrever poemas.
por ora faço assim:
digo mentiras.
silvia chueire
paris
para minha mãe
tenho esta cidade geneticamente
pregada na alma
revê-la é sorrir contigo,
cúmplice,
a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria
é também tua.
silvia chueire
tenho esta cidade geneticamente
pregada na alma
revê-la é sorrir contigo,
cúmplice,
a cidade a abraçar-nos.
e minha súbita alegria
é também tua.
silvia chueire
segunda-feira, 5 de maio de 2008
a cidade
a cidade sobe-me pelos dedos
e escreve o poema
canta uma canção ao sol
que surge tímido
entre as teclas dos acordeons
e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
e escreve o poema
canta uma canção ao sol
que surge tímido
entre as teclas dos acordeons
e as torres elevadamente límpidas das igrejas
silvia chueire
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Diria o mar
Não sei como dirias este mar
onde o sol de entre as nuvens se absorve
em clamores de espuma luminosa
N.D.
Diria o mar como um deslimite,
um universo onde criaturas voam
um bailado de liberdade.
Nós as olhamos,
feito seres impotentes.
Olhamos para cima
as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino
que divino, mas humano, nos entrega
incondicionalmente.
Nunca sabemos bem o que fazer com ele,
a grandeza a erguer-se ou mergulhar
aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão,
acima e abaixo dos desertos,
das rochas,
da terra onde bate incessante
e à qual pertencemos
tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
onde o sol de entre as nuvens se absorve
em clamores de espuma luminosa
N.D.
Diria o mar como um deslimite,
um universo onde criaturas voam
um bailado de liberdade.
Nós as olhamos,
feito seres impotentes.
Olhamos para cima
as ondas que se elevam e despencam.
Netuno tem um reino
que divino, mas humano, nos entrega
incondicionalmente.
Nunca sabemos bem o que fazer com ele,
a grandeza a erguer-se ou mergulhar
aos nossos olhos pequenos.
Diria o mar como uma imensidão,
acima e abaixo dos desertos,
das rochas,
da terra onde bate incessante
e à qual pertencemos
tão breves quanto a chama de uma vela.
Silvia Chueire
quarta-feira, 23 de abril de 2008
o sol
elevamo-nos solares
algum dia,
em alguma terra habitada pelas oliveiras.
tinhas as mãos cheias de mim
aproximavas teus lábios dos meus cabelos
e me dizias tudo,
depois depositava-os nos meus ombros.
éramos o sol ,
a exaltação da vida.
silvia chueire
algum dia,
em alguma terra habitada pelas oliveiras.
tinhas as mãos cheias de mim
aproximavas teus lábios dos meus cabelos
e me dizias tudo,
depois depositava-os nos meus ombros.
éramos o sol ,
a exaltação da vida.
silvia chueire
segunda-feira, 14 de abril de 2008
há um corpo
há um corpo à tua espera
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.
há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.
silvia chueire
um corpo e um conjunto de signos
nas mãos espalmadas
a te oferecerem o riso,
as avencas na pele,
o perfume.
há um corpo, um copo de vinho
ao pé da lareira,
no silêncio do lume.
silvia chueire
sexta-feira, 11 de abril de 2008
um sonho
era um sonho leve
um sonho
xxxxxum pássaro de asas de fogo
era um sonho em combustão
suspensos sobre ele
xxxxxos corpos marejados
era um sonho leve
podia-se
carregá-lo com alegria
a um pássaro assim
não se cortam
xxxxxas asas
não se entrega
xxxxxà própria sorte
era um pássaroxxxxeste sonho
e sua conseqüência
em vôo
xxxxxa culminar no espaço
éramos nós
percebi claramente
xxxxxantes de morrer
silvia chueire
um sonho
xxxxxum pássaro de asas de fogo
era um sonho em combustão
suspensos sobre ele
xxxxxos corpos marejados
era um sonho leve
podia-se
carregá-lo com alegria
a um pássaro assim
não se cortam
xxxxxas asas
não se entrega
xxxxxà própria sorte
era um pássaroxxxxeste sonho
e sua conseqüência
em vôo
xxxxxa culminar no espaço
éramos nós
percebi claramente
xxxxxantes de morrer
silvia chueire
segunda-feira, 7 de abril de 2008
domingo
domingo os meus olhos dormem de ti
as horas andam lentamente sob a chuva
adormecida a urgência
o mundo descansa pacífico
- quase não respira -
silvia chueire
domingo
domingo mis ojos se duermen de ti
las horas caminan despacio bajo la lluvia
adormecida la urgencia
el mundo descansa pacífico
- casi no respira -
silvia chueire
as horas andam lentamente sob a chuva
adormecida a urgência
o mundo descansa pacífico
- quase não respira -
silvia chueire
domingo
domingo mis ojos se duermen de ti
las horas caminan despacio bajo la lluvia
adormecida la urgencia
el mundo descansa pacífico
- casi no respira -
silvia chueire
quinta-feira, 3 de abril de 2008
meu país
meu país era uma alma desolada
e funda
um corpo esquecido em meio
aos tamborins do samba.
silvia chueire
e funda
um corpo esquecido em meio
aos tamborins do samba.
silvia chueire
segunda-feira, 31 de março de 2008
quinta-feira, 27 de março de 2008
dois poemas curtos
cimitarra
a lua é uma cimitarra
rasga o céu
sangra no mar
tudo mais
é silêncio
silvia chueire
plausível
a sombra da tua ausência
a conversar comigo
na hora inusitada do dia
como se fosse ela
- ou eu? -
a (ir)realidade mais plausível
silvia chueire
a lua é uma cimitarra
rasga o céu
sangra no mar
tudo mais
é silêncio
silvia chueire
plausível
a sombra da tua ausência
a conversar comigo
na hora inusitada do dia
como se fosse ela
- ou eu? -
a (ir)realidade mais plausível
silvia chueire
domingo, 23 de março de 2008
pássaros e peixes
nossas bocas mergulhadas,
nossos sexos,
elevando-nos
a pássaros ou peixes
no corte agudo do tempo.
silvia chueire
nossos sexos,
elevando-nos
a pássaros ou peixes
no corte agudo do tempo.
silvia chueire
quinta-feira, 20 de março de 2008
dois poemas curtos
lembrança
às vezes a tua lembrança é suave
apenas pousa na tarde
e acaricia a minha pele.
silvia chueire
desalento
quantos corpos percorrerás
desalentado
por não me encontrares
neles?
silvia chueire
às vezes a tua lembrança é suave
apenas pousa na tarde
e acaricia a minha pele.
silvia chueire
desalento
quantos corpos percorrerás
desalentado
por não me encontrares
neles?
silvia chueire
segunda-feira, 17 de março de 2008
encontro
meu corpo é líquido
a água é seu meio natural
não seu habitat
ou um retorno no tempo
o mergulho do corpo na água é o encontro
a indizível sensação de pertinência
silvia chueire
a água é seu meio natural
não seu habitat
ou um retorno no tempo
o mergulho do corpo na água é o encontro
a indizível sensação de pertinência
silvia chueire
domingo, 16 de março de 2008
um poema de 2004
se
se todas as palavras forem gestos
e todos os gestos, corpo e alma
e todo corpo e alma for delírio
e todo delírio, gozo
e todo gozo for abismo
e todo abismo, nossa natureza
e toda natureza for palavras
e todas as palavras novamente gestos
e todos os gestos, canções
e todas as canções, amor
e todo o amor for vida
e toda vida for suspiro
e todos os suspiros, sentimento
e todo sentimento, poema
e todo poema, o sentido
ajoelhado frente à brevidade
de todas as coisas
aí então, tudo terá valido a pena
silvia chueire
se todas as palavras forem gestos
e todos os gestos, corpo e alma
e todo corpo e alma for delírio
e todo delírio, gozo
e todo gozo for abismo
e todo abismo, nossa natureza
e toda natureza for palavras
e todas as palavras novamente gestos
e todos os gestos, canções
e todas as canções, amor
e todo o amor for vida
e toda vida for suspiro
e todos os suspiros, sentimento
e todo sentimento, poema
e todo poema, o sentido
ajoelhado frente à brevidade
de todas as coisas
aí então, tudo terá valido a pena
silvia chueire
quarta-feira, 12 de março de 2008
hibiscos
quinta-feira, 6 de março de 2008
nem uma palavra
nem uma palavra se move
entre as minhas mãos,
nem acena um gesto;
o silêncio é uma longa noite sem lua.
ladram lá fora os cães
inquietos com o escuro
e as sombras que se movem no escuro
à luz escassa de uma janela solitária.
cá dentro ladra a angústia.
na calada das horas
mesmo o pensamento é furtivo.
tudo é ausência, sem recurso.
silvia chueire
entre as minhas mãos,
nem acena um gesto;
o silêncio é uma longa noite sem lua.
ladram lá fora os cães
inquietos com o escuro
e as sombras que se movem no escuro
à luz escassa de uma janela solitária.
cá dentro ladra a angústia.
na calada das horas
mesmo o pensamento é furtivo.
tudo é ausência, sem recurso.
silvia chueire
domingo, 2 de março de 2008
dois poemas breves
tocar
tens as mãos não-mãos
a língua as palavras
o sonho
que me tocam
tanto
e tão
inevitavelmente
silvia chueire
jasmins
é madrugada, o verão ignora
que o inventamos
e o inesperado perfume dos jasmins
cola-se às calçadas, às pessoas,
desatando a memória de outras noites.
no sorriso do reencontro
com a cidade, o encantamento.
silvia chueire
tens as mãos não-mãos
a língua as palavras
o sonho
que me tocam
tanto
e tão
inevitavelmente
silvia chueire
jasmins
é madrugada, o verão ignora
que o inventamos
e o inesperado perfume dos jasmins
cola-se às calçadas, às pessoas,
desatando a memória de outras noites.
no sorriso do reencontro
com a cidade, o encantamento.
silvia chueire
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
alegria
o poema
tantas vezes hesita,
tantas vezes estremece nas minhas mãos
a procurar palavras.
é grande a alegria
quando se deposita nelas.
silvia chueire
tantas vezes hesita,
tantas vezes estremece nas minhas mãos
a procurar palavras.
é grande a alegria
quando se deposita nelas.
silvia chueire
sábado, 23 de fevereiro de 2008
fim da tarde
ao fim da tarde
os olhos, pálpebras semicerradas,
são também crepúsculo,
corpo entregue ao amor.
cores sobre o mundo,
dia, noite,
riso e sussurro.
silvia chueire
os olhos, pálpebras semicerradas,
são também crepúsculo,
corpo entregue ao amor.
cores sobre o mundo,
dia, noite,
riso e sussurro.
silvia chueire
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
tocas-me
tocas-me
e és um inesperado rio
a me atravessar
um inesperado sorriso
tocas-me
e para além do desejo
tenho a ternura nas mãos
silvia chueire
e és um inesperado rio
a me atravessar
um inesperado sorriso
tocas-me
e para além do desejo
tenho a ternura nas mãos
silvia chueire
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
esqueces
baixas as pálpebras
para que teus olhos não me vejam.
esqueces que vivo dentro deles
(hesitei tantos séculos
até me aventurar por estes precipícios).
silvia chueire
para que teus olhos não me vejam.
esqueces que vivo dentro deles
(hesitei tantos séculos
até me aventurar por estes precipícios).
silvia chueire
sábado, 9 de fevereiro de 2008
Flores ou facas
Cabem flores ou facas
no meu pensamento.
Fio ou perfume a nascerem
conforme o dia.
Tomo ambos com o mesmo cuidado;
ambos têm uma fraqueza
irrecusável.
Silvia Chueire
no meu pensamento.
Fio ou perfume a nascerem
conforme o dia.
Tomo ambos com o mesmo cuidado;
ambos têm uma fraqueza
irrecusável.
Silvia Chueire
sábado, 2 de fevereiro de 2008
contíguos :
pássaros
I
voa um pássaro agudo
contra o céu
da cidade incendiada
seguem-no os olhos
e a pele
no auge do verão
---------------------------
II
meu corpo é um pássaro agudo
sob o céu de verão
mergulha no mar
na vertigem
hoje como se fosse sempre
silvia chueire
I
voa um pássaro agudo
contra o céu
da cidade incendiada
seguem-no os olhos
e a pele
no auge do verão
---------------------------
II
meu corpo é um pássaro agudo
sob o céu de verão
mergulha no mar
na vertigem
hoje como se fosse sempre
silvia chueire
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
domingo
um dia pode parecer um ano
se olho para a pujança da mata
a ser invadida pelas casas
as nuvens pesam sobre o morro
e há tanto a dizer
mas o silêncio anda colado ao tempo
e pesa com o domingo
silvia chueire
se olho para a pujança da mata
a ser invadida pelas casas
as nuvens pesam sobre o morro
e há tanto a dizer
mas o silêncio anda colado ao tempo
e pesa com o domingo
silvia chueire
sábado, 26 de janeiro de 2008
minha
tua lâmina me acaricia o pescoço,
desce-me pelo colo,
toca-me o ventre.
a lâmina do teu desejo
é minha.
silvia chueire
desce-me pelo colo,
toca-me o ventre.
a lâmina do teu desejo
é minha.
silvia chueire
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
dois poemas curtos
última
uma última palavra no ano
martela os minutos
uma palavra esculpida
pelo vento
adeus
teu país
pronunciei ternamente
o nome do teu país
ele era meu
na combustão da tarde
silvia chueire
uma última palavra no ano
martela os minutos
uma palavra esculpida
pelo vento
adeus
teu país
pronunciei ternamente
o nome do teu país
ele era meu
na combustão da tarde
silvia chueire
domingo, 20 de janeiro de 2008
nada fica no tempo
nada fica no tempo
nem a memória do riso
a sacudir-me de puro prazer
quando me falas
nem o absoluto estremecer
do meu corpo
quando me beijas
nada fica
mas enquanto estão aqui
são a razão e o sentido
de tudo
silvia chueire
nem a memória do riso
a sacudir-me de puro prazer
quando me falas
nem o absoluto estremecer
do meu corpo
quando me beijas
nada fica
mas enquanto estão aqui
são a razão e o sentido
de tudo
silvia chueire
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
dorme
dorme entre os dedos
a rosa viva
no meio da noite
e os lábios dizem
a palavra impossível
lâmina em meio ao delírio.
no escuro os olhos cantam
uma canção liberta
o corpo desorientado
sabe apenas ser corpo
uma harpa estremece,
embala os cabelos
a irem e virem
e um nome improvável.
silvia chueire
a rosa viva
no meio da noite
e os lábios dizem
a palavra impossível
lâmina em meio ao delírio.
no escuro os olhos cantam
uma canção liberta
o corpo desorientado
sabe apenas ser corpo
uma harpa estremece,
embala os cabelos
a irem e virem
e um nome improvável.
silvia chueire
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
mais uma
só mais uma noite
no auge do verão.
não importa se estás surda ou muda,
se as árvores se mexem ao vento,
o ar te queima a paz,
se a angústia te agarra as pernas,
ou mais um ano se vai.
é uma noite apenas.
silvia chueire
no auge do verão.
não importa se estás surda ou muda,
se as árvores se mexem ao vento,
o ar te queima a paz,
se a angústia te agarra as pernas,
ou mais um ano se vai.
é uma noite apenas.
silvia chueire
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
não espero
eu tinha sentimentos vagos e pensava
que o mundo era assim
não previa a geometria de cada gesto
a expectativa da morte alheia
não estava nos meus planos
- talvez estivesse, disseram-me –
sob as minhas pálpebras
derramavam-se inquietações
aprendi a ter calma
dei-lhes as mãos
dormi com elas
não concebia outro corpo como se fosse meu
perdia-me em baladas noturnas
pelo gosto acre doce
do sol a nascer
vivia cada horizonte diário
cada horizonte, o último
hoje não me evado do silêncio
deixo-me nele
numa nostalgia estúpida do que não
nada espero
silvia chueire
eu tinha sentimentos vagos e pensava
que o mundo era assim
não previa a geometria de cada gesto
a expectativa da morte alheia
não estava nos meus planos
- talvez estivesse, disseram-me –
sob as minhas pálpebras
derramavam-se inquietações
aprendi a ter calma
dei-lhes as mãos
dormi com elas
não concebia outro corpo como se fosse meu
perdia-me em baladas noturnas
pelo gosto acre doce
do sol a nascer
vivia cada horizonte diário
cada horizonte, o último
hoje não me evado do silêncio
deixo-me nele
numa nostalgia estúpida do que não
nada espero
silvia chueire
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
um dia
um dia o corpo acende os olhos
e tudo aconteceu
não viu Ipanema aos domingos
e o samba na Lapa
um dia o corpo acorda
acendido por uns olhos
ou pelo mar
e acha graça em si mesmo
um dia o corpo ri desatado
na plenitude de o ser
porque o tempo é uma invenção
da qual ninguém escapa
mas tomamos a vida nas mãos
e a bebemos
silvia chueire
um dia o corpo acende os olhos
e tudo aconteceu
não viu Ipanema aos domingos
e o samba na Lapa
um dia o corpo acorda
acendido por uns olhos
ou pelo mar
e acha graça em si mesmo
um dia o corpo ri desatado
na plenitude de o ser
porque o tempo é uma invenção
da qual ninguém escapa
mas tomamos a vida nas mãos
e a bebemos
silvia chueire
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
sábado, 15 de dezembro de 2007
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
o passo adiante
dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .
o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.
o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.
o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.
o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados
frente ao humano trêmulo que és,
a desejar a morte.
a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante, um peso insuportável.
silvia chueire
dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .
o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.
o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.
o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.
o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados
frente ao humano trêmulo que és,
a desejar a morte.
a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante, um peso insuportável.
silvia chueire
domingo, 9 de dezembro de 2007
Contextualizar
O poema é aleatório e chama.
Não sei porque chama,
porque arde,
nem como as palavras nascem
na cabeça e nas mãos
que se apressam a segui-la.
Nem como se organizam
as pequenas habitações do olhar,
palpitando sonoras,
vivas,
a me empurrarem para ele.
Não sei o modo do som
a me tomar a voz.
Só sei o relâmpago
a encher as folhas de palavras.
A paixão.
Silvia Chueire
O poema é aleatório e chama.
Não sei porque chama,
porque arde,
nem como as palavras nascem
na cabeça e nas mãos
que se apressam a segui-la.
Nem como se organizam
as pequenas habitações do olhar,
palpitando sonoras,
vivas,
a me empurrarem para ele.
Não sei o modo do som
a me tomar a voz.
Só sei o relâmpago
a encher as folhas de palavras.
A paixão.
Silvia Chueire
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
dá-me a tua mão
dá-me a tua mão,
para que eu possa decifrar
contigo o mistério
segredado pela noite,
agarrada aos corpos dos amantes.
este mistério que já nos passou,
cada um a seu tempo;
um sopro,
e se perdeu de nós.
dá-me tua mão,
para caminharmos loucamente
a rir do que se foi
e não nos pesa na memória.
dá-me tua mão,
para esquecermos tudo,
no oceano as cabeças
mergulhadas;
os corpos.
silvia chueire
dá-me a tua mão,
para que eu possa decifrar
contigo o mistério
segredado pela noite,
agarrada aos corpos dos amantes.
este mistério que já nos passou,
cada um a seu tempo;
um sopro,
e se perdeu de nós.
dá-me tua mão,
para caminharmos loucamente
a rir do que se foi
e não nos pesa na memória.
dá-me tua mão,
para esquecermos tudo,
no oceano as cabeças
mergulhadas;
os corpos.
silvia chueire
sábado, 1 de dezembro de 2007
sobre acontecer
os dias são um vazio estranho,
tempo sem significado.
os olhos olham perplexos para a vida,
infamiliares com a ausência de acontecimentos.
chove mas não há ruídos,
faz sol mas não há calor,
fala-se e não se ouve voz,
dão-se passos na imobilidade.
tudo é ar parado,
reincidência de rotinas.
as perguntas teimam e teimam,
a nos beliscarem o corpo.
o que é um acontecimento,
a construção do tempo?
silvia chueire
os dias são um vazio estranho,
tempo sem significado.
os olhos olham perplexos para a vida,
infamiliares com a ausência de acontecimentos.
chove mas não há ruídos,
faz sol mas não há calor,
fala-se e não se ouve voz,
dão-se passos na imobilidade.
tudo é ar parado,
reincidência de rotinas.
as perguntas teimam e teimam,
a nos beliscarem o corpo.
o que é um acontecimento,
a construção do tempo?
silvia chueire
domingo, 25 de novembro de 2007
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
sábado, 17 de novembro de 2007
neo-real
o poema passeia pela cidade
tropeçando nas pernas dos transeuntes.
deambula cheio de hesitação,
a pensar se o revólver
carregado pelo menino
-e sua vida curta-
estará em algum verso.
a duvidar que a existência
vivida no ápice do desprezo pela vida,
na ponta de uma bala,
contenha em si algum lirismo.
talvez um violento lirismo neo-real
que dá a mão aos dramas mais comuns.
lá os dias são facas.
silvia chueire
tropeçando nas pernas dos transeuntes.
deambula cheio de hesitação,
a pensar se o revólver
carregado pelo menino
-e sua vida curta-
estará em algum verso.
a duvidar que a existência
vivida no ápice do desprezo pela vida,
na ponta de uma bala,
contenha em si algum lirismo.
talvez um violento lirismo neo-real
que dá a mão aos dramas mais comuns.
lá os dias são facas.
silvia chueire
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
a dor
a dor é um travo
um cravo na pele
amargo no sangue
espesso a circular
no coração cheio de cansaço
a dor é um cravo
a perfumar a noite
bate a angústia nas vidraças
a fraturar a calma
canta alto na madrugada
de insônias
inunda os nossos olhos
afoga-os
mastiga o sentido da vida
silvia chueire
um cravo na pele
amargo no sangue
espesso a circular
no coração cheio de cansaço
a dor é um cravo
a perfumar a noite
bate a angústia nas vidraças
a fraturar a calma
canta alto na madrugada
de insônias
inunda os nossos olhos
afoga-os
mastiga o sentido da vida
silvia chueire
domingo, 4 de novembro de 2007
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
anoitecer
anoitece de todas as maneiras,
a escuridão imiscuída entre as ruas
é um silêncio de ausências e omissões.
caem as casas na cidade desolada,
caem os pensamentos
feito espinhos,
e os homens recolhem-se à melancolia,
à consciência áspera das coisas.
não há redenção no amor
quando a pele a descolar dos ossos
é um vento a invadir cada minuto .
silvia chueire
a escuridão imiscuída entre as ruas
é um silêncio de ausências e omissões.
caem as casas na cidade desolada,
caem os pensamentos
feito espinhos,
e os homens recolhem-se à melancolia,
à consciência áspera das coisas.
não há redenção no amor
quando a pele a descolar dos ossos
é um vento a invadir cada minuto .
silvia chueire
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
marés
o mar a habitar o corpo
entregue a ti todos os dias
o sonho
o amor entrelaçado às pernas,
entregue ao sonho todos os dias,
o oceano
o sonho a habitar o amor
entregue à vida todos os dias
o corpo
o amor, o corpo,
o sonho, a ir e vir,
o oceano
silvia chueire
entregue a ti todos os dias
o sonho
o amor entrelaçado às pernas,
entregue ao sonho todos os dias,
o oceano
o sonho a habitar o amor
entregue à vida todos os dias
o corpo
o amor, o corpo,
o sonho, a ir e vir,
o oceano
silvia chueire
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
faca
a dor metida nos teus olhos
é uma faca.
olho-te
- quando não vês –
e espero que se vá a tempestade
que te cresceu nas mãos
se há que sofrer
a mim deviam caber estes dias
a dor não deve ser uma possibilidade
na vida dos filhos
facilmente tomaria para mim
a tua angústia
ver-te sorrir
é todas as coisas nos seus lugares
silvia chueire
é uma faca.
olho-te
- quando não vês –
e espero que se vá a tempestade
que te cresceu nas mãos
se há que sofrer
a mim deviam caber estes dias
a dor não deve ser uma possibilidade
na vida dos filhos
facilmente tomaria para mim
a tua angústia
ver-te sorrir
é todas as coisas nos seus lugares
silvia chueire
sábado, 6 de outubro de 2007
verão
o sol abre o dia,
canta e canta nos meus cabelos
e sobre a pele.
acordo como se fosse ontem a noite
profundamente embalada
pela memória.
há um corpo inquieto
que fala da tua falta
e aconchega-a contrariado
entre os seios
e uns acordes de jazz.
cruzam em mim notas do cello,
uns agudos de violino
junto a frases melancólicas
que as mãos pretendem escrever.
mas o sol é impiedoso,
a tudo descobre e aquece
enquanto azula o mar.
azula-me
e canta uma canção outra.
deixo-me estar em silêncio,
o corpo aquecido
a dizer-me em alta voz:
vem novamente o verão.
silvia chueire
canta e canta nos meus cabelos
e sobre a pele.
acordo como se fosse ontem a noite
profundamente embalada
pela memória.
há um corpo inquieto
que fala da tua falta
e aconchega-a contrariado
entre os seios
e uns acordes de jazz.
cruzam em mim notas do cello,
uns agudos de violino
junto a frases melancólicas
que as mãos pretendem escrever.
mas o sol é impiedoso,
a tudo descobre e aquece
enquanto azula o mar.
azula-me
e canta uma canção outra.
deixo-me estar em silêncio,
o corpo aquecido
a dizer-me em alta voz:
vem novamente o verão.
silvia chueire
domingo, 30 de setembro de 2007
do poema - fuga
estou sentada
e olho os minutos
atravessados nas pessoas.
olho-os quase descrente
de que o tempo não se desdobre
em palavras ou ações todo o tempo.
as horas são um conjunto ilógico
de pragmatismos, estatísticas,
cidades a desmoronarem,
humanos desencontrados.
o poema foge de nós
dentro da noite.
eu sei, estou sentada e vejo
a fuga para o lugar obscuro
que habitava, antes
que eu o chamasse.
mas há crianças exangues,
bombas, cadáveres.
há silêncio mortal em meio ao sangue.
estou sentada como se fosse imune
e o tempo falasse comigo
a contar-me histórias antigas
para me distrair.
distraio-me de mim mesma.
mas o tempo, o mundo,
batem à porta dos meus olhos,
sem piedade.
e o poema esconde-se
nalgum vão da vida
o poema e o sentimento de mundo.
silvia chueire
estou sentada
e olho os minutos
atravessados nas pessoas.
olho-os quase descrente
de que o tempo não se desdobre
em palavras ou ações todo o tempo.
as horas são um conjunto ilógico
de pragmatismos, estatísticas,
cidades a desmoronarem,
humanos desencontrados.
o poema foge de nós
dentro da noite.
eu sei, estou sentada e vejo
a fuga para o lugar obscuro
que habitava, antes
que eu o chamasse.
mas há crianças exangues,
bombas, cadáveres.
há silêncio mortal em meio ao sangue.
estou sentada como se fosse imune
e o tempo falasse comigo
a contar-me histórias antigas
para me distrair.
distraio-me de mim mesma.
mas o tempo, o mundo,
batem à porta dos meus olhos,
sem piedade.
e o poema esconde-se
nalgum vão da vida
o poema e o sentimento de mundo.
silvia chueire
quinta-feira, 27 de setembro de 2007
sábado, 22 de setembro de 2007
sábado, 15 de setembro de 2007
Do alto do amor
Freqüentemente me esqueço que o mundo
tem a idade do olhar dos homens
para as coisas e as mulheres,
como se fossem deuses, ou baú de brinquedos.
Que as mulheres vivem na oscilação lunar
pisando ora em lâminas,
ora na areia da praia,
em pequenas taquicardias,
a oferecerem o seio ao amante,
ou ao pequenino que alimentam
com olhos mansos.
Freqüentemente me esqueço
da aguda mortalidade nossa.
Nossa, de todas as criaturas,
transfiguradas em pó ou pedra
ou numa árvore qualquer,
sem solenidade.
Apenas porque um dia surge
depois de outro.
Freqüentemente me esqueço
e quero o teu corpo
para amá-lo, abrigar-me nele,
por ele me deixar amar
atravessada de prazer.
Acolhida por ti em luz,
alegria, música
- o desejo atendido,
a atender-te.
Porque do alto do amor
pouco me interessa a questão metafísica da morte,
ou da possibilidade de não estarmos aqui
se o tempo do olhar
não corresponde ao tempo físico.
Silvia Chueire
tem a idade do olhar dos homens
para as coisas e as mulheres,
como se fossem deuses, ou baú de brinquedos.
Que as mulheres vivem na oscilação lunar
pisando ora em lâminas,
ora na areia da praia,
em pequenas taquicardias,
a oferecerem o seio ao amante,
ou ao pequenino que alimentam
com olhos mansos.
Freqüentemente me esqueço
da aguda mortalidade nossa.
Nossa, de todas as criaturas,
transfiguradas em pó ou pedra
ou numa árvore qualquer,
sem solenidade.
Apenas porque um dia surge
depois de outro.
Freqüentemente me esqueço
e quero o teu corpo
para amá-lo, abrigar-me nele,
por ele me deixar amar
atravessada de prazer.
Acolhida por ti em luz,
alegria, música
- o desejo atendido,
a atender-te.
Porque do alto do amor
pouco me interessa a questão metafísica da morte,
ou da possibilidade de não estarmos aqui
se o tempo do olhar
não corresponde ao tempo físico.
Silvia Chueire
quinta-feira, 6 de setembro de 2007
Dizer
Diz o teu amor a tocar as pétalas
do fogo que nos lambe os olhos,
e nos enche a alegria de significado.
Diz a tua extrema delicadeza
ao segurá-lo nas mãos,
o medo atravessado no teu sangue.
Diz o teu desejo incendiado junto
ao teu afeto no oceano de palavras
que te ocorrem. Diz a língua que te fala.
Diz.
E me espera.
No mesmo lugar de sempre.
Silvia Chueire
Diz o teu amor a tocar as pétalas
do fogo que nos lambe os olhos,
e nos enche a alegria de significado.
Diz a tua extrema delicadeza
ao segurá-lo nas mãos,
o medo atravessado no teu sangue.
Diz o teu desejo incendiado junto
ao teu afeto no oceano de palavras
que te ocorrem. Diz a língua que te fala.
Diz.
E me espera.
No mesmo lugar de sempre.
Silvia Chueire
domingo, 2 de setembro de 2007
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
DOIS POEMAS CURTOS:
perder-me
perco os olhos no mar
e o pensamento
tudo é confronto e angústia
no largo silêncio
da água
silvia chueire
dia após dia
passa dia após dia
sobre a terra e a pele
não esqueço:
habitas-me
a murmurar as mesmas palavras
sobre o oceano
silvia chueire
perco os olhos no mar
e o pensamento
tudo é confronto e angústia
no largo silêncio
da água
silvia chueire
dia após dia
passa dia após dia
sobre a terra e a pele
não esqueço:
habitas-me
a murmurar as mesmas palavras
sobre o oceano
silvia chueire
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
tu (nós)
tu abrias as portas do mundo
e ele navegava os nossos corpos
escalava as nossas palavras
únicas nas nossas bocas
a língua
trabalhava novos significados
para a vida.
tu ousavas caminhar comigo
sobre as horas como se não fossem tempo
elas a servirem de cenário
para o destino:
nós
nada mais importava
às almas iluminadas
que a vida e suas taquicardias
tu dividias comigo a noite
e os pensamentos da noite
subiam-nos à cabeça e às mãos
como se fossem gestos
as idéias brilhando em nós
pela primeira vez
era sempre a primeira
e última vez
que nos amávamos
sempre
silvia chueire
tu abrias as portas do mundo
e ele navegava os nossos corpos
escalava as nossas palavras
únicas nas nossas bocas
a língua
trabalhava novos significados
para a vida.
tu ousavas caminhar comigo
sobre as horas como se não fossem tempo
elas a servirem de cenário
para o destino:
nós
nada mais importava
às almas iluminadas
que a vida e suas taquicardias
tu dividias comigo a noite
e os pensamentos da noite
subiam-nos à cabeça e às mãos
como se fossem gestos
as idéias brilhando em nós
pela primeira vez
era sempre a primeira
e última vez
que nos amávamos
sempre
silvia chueire
domingo, 12 de agosto de 2007
quarta-feira, 8 de agosto de 2007

perpendicular
olho o dia em modo perpendicular
as casas dão passos
morro acima as pessoas
dão passos no afã
de sobreviver no caos
entre o sol
e o sal de cada dia
há uma crueldade
na repetição das coisas,
na sensação oblíqua
de imutabilidade
mas afinal tudo muda,
dizem.
e a beleza da paisagem
é inegável.
silvia chueire
terça-feira, 31 de julho de 2007
Este corpo
Olha, digo,
é este o corpo que tenho.
Não é um corpo de arestas.
Pudesses saber agora
em que píncaros,
em que precipícios ele se construiu,
saberias também o que tenho de pássaro.
O que de oceano, tenho.
O que de só carne e sangue,
artérias batendo contra as têmporas,
pequenas taquicardias
neste corpo desconsoladamente humano.
Que não recusa a glória de o ser,
nem sua submissão ao tempo.
Silvia Chueire
sexta-feira, 27 de julho de 2007
domingo, 22 de julho de 2007
sábado, 14 de julho de 2007
Dai-me
Dai-me trevas,
com elas construirei luz.
Dai-me o silêncio,
nele eclodirá a palavra,
surpreendente,
flor a sair das águas.
Dai-me o poder de pronunciar
a palavra, de nomear a coisa
que habitará cada verso.
Cantarei uma canção
entre o olhar e a realidade,
uma canção para sempre.
Dai-me o dom de perceber
a poesia pousada no mundo,
na face encantada do mundo,
no seu corpo maltratado.
Dai-me o privilégio
de ouvir a música
que vive nos gestos, no espaço,
no frágil equilíbrio da Terra.
Dai-me mãos e braços
para escrever o que sequer dizemos,
com eles produzirei novos significados
e alçarei vôo.
O vôo sutilíssimo do poema.
Silvia Chueire
Dai-me trevas,
com elas construirei luz.
Dai-me o silêncio,
nele eclodirá a palavra,
surpreendente,
flor a sair das águas.
Dai-me o poder de pronunciar
a palavra, de nomear a coisa
que habitará cada verso.
Cantarei uma canção
entre o olhar e a realidade,
uma canção para sempre.
Dai-me o dom de perceber
a poesia pousada no mundo,
na face encantada do mundo,
no seu corpo maltratado.
Dai-me o privilégio
de ouvir a música
que vive nos gestos, no espaço,
no frágil equilíbrio da Terra.
Dai-me mãos e braços
para escrever o que sequer dizemos,
com eles produzirei novos significados
e alçarei vôo.
O vôo sutilíssimo do poema.
Silvia Chueire
terça-feira, 10 de julho de 2007
ao fio da voz
desfez-se o mundo
no assombro da tua voz afiada
cortando a noite.
e caíram todas as coisas:
meu corpo entregue ao teu,
os gestos que te esperavam,
teus olhos pedintes
e braços a encerrarem o amor,
nossas noites indormidas,
os corpos a rirem-se
debruçados no vinho
e na música
- todas as coisas.
ainda te procuro.
vejo-te nos lugares que tomaste para ti,
toco-lhes e encontro a tua ausência.
minha voz nada diz,
as palavras coladas à mágoa
cristalizam-se nos lábios.
silvia chueire
desfez-se o mundo
no assombro da tua voz afiada
cortando a noite.
e caíram todas as coisas:
meu corpo entregue ao teu,
os gestos que te esperavam,
teus olhos pedintes
e braços a encerrarem o amor,
nossas noites indormidas,
os corpos a rirem-se
debruçados no vinho
e na música
- todas as coisas.
ainda te procuro.
vejo-te nos lugares que tomaste para ti,
toco-lhes e encontro a tua ausência.
minha voz nada diz,
as palavras coladas à mágoa
cristalizam-se nos lábios.
silvia chueire
sábado, 30 de junho de 2007

o passo adiante
dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .
o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.
o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.
o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.
o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados frente ao humano trêmulo
que és,
a desejar a morte.
a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante um peso insuportável.
silvia chueire
sábado, 23 de junho de 2007

perguntas
qual o destino dos corpos,
pergunto-me,
depois de mastigados pelas horas,
pelos gestos, desde o nascer do sol?
qual o destino dos corpos para além da deterioração,
ou logo antes dela?
qual o destino dos corpos entregues ao amor?
que destino terão depois de deixarem de ser o que são
para transformarem-se num outro
temporário e divino?
qual o destino nostálgico,
a melancolia bruta,
se nunca mais podem ser os deuses que um dia foram?
qual o destino dos corpos abandonados
pelos seus donos
sem propósito ou sentido,
quando nada mais desejam
senão serem o que são
e exercerem-no na sua glória?
silvia chueire
terça-feira, 19 de junho de 2007
quinta-feira, 14 de junho de 2007
quarta-feira, 6 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
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